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Paulo Afonso,27/10/2026

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Aldo Carvalho

O impacto da Inteligência Artificial sobre os bons redatores

📸: Gerada por IA
O impacto da Inteligência Artificial sobre os bons redatores

Nunca foi tão difícil provar que se sabe escrever.

A afirmação pode parecer contraditória em uma época em que a informação circula em velocidade sem precedentes e as tecnologias ampliam as possibilidades de produção de conteúdo. Contudo, ela traduz um fenômeno cada vez mais presente: o surgimento de uma desconfiança generalizada em relação à autoria dos textos bem escritos. Paradoxalmente, no momento em que a inteligência artificial alcança um elevado grau de sofisticação na produção textual, aqueles que passaram uma vida inteira desenvolvendo a habilidade de escrever são, não raramente, questionados sobre a verdadeira origem de seus textos.


Lembro-me bem de uma época em que jovens alunos do ensino fundamental eram constantemente estimulados ao exercício da boa escrita. Esta prática, naqueles bons e memoráveis tempos de Murilo Braga, COLEPA e Escola Rural, em minha cidade natal Paulo Afonso, nos rincões do sertão beradeiro do Velho Chico, não se relacionava apenas com o aprendizado de regras gramaticais ou da reprodução mecânica de conteúdos. Escrever bem era compreendido como uma competência fundamental para a vida, uma ferramenta de expressão, argumentação e compreensão da realidade.


Em meus tempos de estudante, hoje já convertido em um jovem sessentão, a escrita era valorizada como um patrimônio intelectual. Havia a convicção de que o hábito da leitura e a capacidade de organizar o pensamento em palavras contribuíam para formar indivíduos mais críticos, mais preparados para compreender o mundo e mais capazes de participar dele de forma consciente.


Sempre fui movido pela curiosidade. A geografia, a história, as biografias de personagens marcantes, os estudos sobre nações e culturas distintas despertavam em mim um interesse quase permanente pela descoberta. Mais tarde, vieram também a matemática, a química, a física e a filosofia, ainda que inicialmente de forma modesta. Essas experiências não apenas ampliaram meus horizontes intelectuais, mas também fortaleceram uma relação afetiva com a leitura e, consequentemente, com a escrita.


Curiosamente, houve uma época em que minha escrita gerava um problema inverso ao atual. Ainda no ensino fundamental, fui "carinhosamente" deixado de fora de alguns concursos de redação porque meus textos costumavam criar certo desequilíbrio na disputa. Era uma espécie de reconhecimento informal de que eu possuía alguma desenvoltura com as palavras. Naquele tempo, ninguém suspeitava da participação de algoritmos. O máximo que poderiam imaginar era que eu passava tempo demais entre livros.


Foi desse conjunto de vivências, leituras e inquietações que nasceu o prazer de escrever. Como ocorre com qualquer habilidade cultivada ao longo do tempo, a escrita foi sendo aperfeiçoada de maneira gradual, natural e contínua. Não por genialidade, mas por exercício. 

Não por inspiração permanente, mas pela disciplina de quem lê, reflete e busca compreender o mundo ao seu redor.


Após mais de três décadas de vida profissional, considero-me um redator razoável. Não porque domine todos os recursos da linguagem, mas porque aprendi, ao longo dos anos, a estruturar ideias, construir argumentos e comunicar pensamentos com clareza e coerência.


É justamente nesse contexto que surge um dos efeitos mais curiosos da revolução promovida pela inteligência artificial.


Faço questão de registrar que não vejo a IA como inimiga. Muito pelo contrário. Trata-se de uma ferramenta extraordinária, capaz de ampliar capacidades, acelerar processos e contribuir significativamente para a qualificação profissional em inúmeras áreas. Ignorar seu potencial seria um erro tão grande quanto rejeitar as transformações tecnológicas que moldaram outras épocas.


Entretanto, toda grande inovação produz efeitos colaterais. E um deles parece recair exatamente sobre aqueles que desenvolveram suas competências muito antes da existência dessas ferramentas.


Hoje, um texto bem estruturado, semanticamente consistente, tecnicamente correto e argumentativamente sólido já não desperta apenas admiração ou reconhecimento. Com frequência, desperta suspeita. Não é raro que um redator experiente seja confrontado com uma pergunta que, há poucos anos, sequer faria sentido: "Foi você mesmo quem escreveu isso?"

A questão não está necessariamente na dúvida legítima, mas na inversão de percepção que ela revela. Durante décadas, fomos incentivados a ler mais, estudar mais e escrever melhor. Agora, quando alguém apresenta os resultados desse esforço acumulado, corre o risco de ver sua autoria colocada em xeque simplesmente porque sua escrita alcançou um padrão que passou a ser associado às máquinas.


Talvez este seja um dos aspectos mais paradoxais da era da inteligência artificial. Não porque as máquinas escrevam bem, mas porque passamos a desconfiar daqueles que também escrevem.


Afinal, a boa escrita não surgiu com os algoritmos. Ela continua nascendo da leitura, da observação, da experiência, da reflexão e do esforço contínuo de compreender a complexidade da vida humana. Nenhuma ferramenta, por sofisticada que seja, substitui a trajetória intelectual que permite a alguém desenvolver uma voz própria, um repertório consistente e uma visão de mundo construída ao longo dos anos.


Talvez seja por isso que eu ache particularmente curiosa a desconfiança que hoje recai sobre quem escreve bem.


Houve um tempo em que a minha habilidade com a escrita produzia um efeito bastante diferente. Ainda no ensino fundamental, fui "carinhosamente" excluído de alguns concursos de redação porque minha participação tornava o resultado previsível demais. Naquela época, isso era entendido como uma consequência das muitas horas de leitura, da curiosidade permanente e do gosto pelas palavras. Ninguém cogitava que meus textos fossem obra de alguma inteligência artificial. Até porque as únicas inteligências disponíveis eram os livros da biblioteca, os professores que ainda tinham paciência para corrigir redações e a curiosidade de um garoto que insistia em ler mais do que devia.


Passadas algumas décadas, descubro que a boa escrita continua causando incômodos, mas por razões diferentes. Antes, o problema era escrever bem demais para participar da competição. Agora, o problema é escrever bem o suficiente para despertar suspeitas. Se antes me afastavam dos concursos porque acreditavam que eu tinha habilidade para redigir, hoje há quem imagine que essa mesma habilidade só pode ser explicada pela intervenção de uma máquina.


Confesso que existe certa ironia nessa trajetória. Passei a vida ouvindo professores recomendarem leitura, estudo, ampliação de vocabulário e desenvolvimento do pensamento crítico. Segui o conselho. Li bastante, escrevi bastante, errei bastante e reescrevi mais ainda. Agora, quando o resultado desse processo aparece em um texto, surge a desconfiança: "Tem certeza de que foi você quem escreveu?"

A resposta continua sendo a mesma de cinquenta anos atrás. Sim, fui eu. A diferença é que, naquela época, acreditavam que eu escrevia bem porque lia muito. Hoje, alguns acreditam que escrevo bem porque uma máquina escreve por mim.


Talvez este seja o maior elogio involuntário que a era da inteligência artificial tenha produzido. Depois de uma vida inteira convivendo com livros, autores, ideias, reflexões, dúvidas e aprendizados, finalmente alcancei um nível de escrita que algumas pessoas julgam impossível para um ser humano. Só não imaginava que, após décadas de esforço para aprimorar a minha redação, o prêmio chegaria na forma de uma suspeita tecnológica.


No fim das contas, talvez o verdadeiro paradoxo não seja a inteligência artificial escrever como gente. Talvez seja o fato de algumas pessoas terem começado a acreditar que gente não consegue mais escrever como gente. E essa, confesso, é uma ironia que nem o melhor dos algoritmos teria sido capaz de inventar.



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