Gilmar Teixeira
Alertar é nossa obrigação
Gilmar TeixeiraHouve um tempo — não muito distante — em que o país parecia andar sobre uma corda esticada entre o bom senso e o abismo. E o mais curioso é que muita gente nem percebeu quando começou a balançar.
A história não costuma se repetir com a mesma roupa, mas tem o hábito inquietante de usar os mesmos gestos. Trocam-se os nomes, mudam-se os discursos, mas certos sinais permanecem: o desprezo pelo diálogo, a substituição da verdade pela conveniência, a transformação do outro em inimigo.
É assim que começa.
Não com tanques nas ruas, nem com decretos estrondosos, mas com pequenas concessões cotidianas. Um riso diante de uma grosseria pública. Um silêncio diante de uma injustiça evidente. Uma justificativa apressada para aquilo que, no fundo, já sabemos ser errado.
Quando se percebe, a linguagem já mudou. O respeito vira fraqueza. A ignorância passa a ser celebrada como autenticidade. A agressividade ganha aplausos. E a dúvida — que deveria ser motor da inteligência — passa a ser tratada como traição.
Nesse ambiente, as instituições deixam de ser pilares e passam a ser obstáculos. A imprensa vira inimiga. A ciência vira opinião. A educação vira suspeita. E o pensamento crítico, esse sim, passa a incomodar.
Não é um processo barulhento. É, na maioria das vezes, sutil. Vai se infiltrando nas conversas de família, nas redes sociais, nas mesas de bar. Vai criando um clima onde tudo parece permitido — desde que esteja do “lado certo”.
Mas há um preço.
Sempre há.
Sociedades que flertam com o radicalismo acabam, mais cedo ou mais tarde, pagando com algo que não deveria ser negociável: a capacidade de conviver. E quando a convivência se rompe, o que sobra não é força — é fragilidade disfarçada de grito.
A memória, nesses momentos, é uma forma de resistência.
Lembrar não para alimentar ressentimentos, mas para reconhecer padrões. Para entender que nenhum país se perde de uma vez; ele vai se perdendo aos poucos, nas escolhas pequenas, nas tolerâncias perigosas, nas omissões convenientes.
E é justamente aí que mora a responsabilidade de cada um.
Nem sempre a vida pública nos oferece escolhas ideais. Nem sempre há entusiasmo, nem sempre há identificação plena. Mas há momentos em que a decisão não é sobre preferências — é sobre limites.
Sobre o que se aceita.
Sobre o que se recusa.
Sobre o que se normaliza.
A maturidade de uma sociedade não está em nunca errar, mas em saber reconhecer quando está perto de errar de novo.
E talvez o maior risco não esteja nos extremos em si, mas na indiferença de quem acredita que nada disso lhe diz respeito.
Diz.
Sempre diz.
Porque, no fim das contas, um país não é feito apenas de governos. É feito, sobretudo, das escolhas silenciosas de quem o habita.
E são essas escolhas — discretas, quase invisíveis — que, somadas, decidem se seguimos adiante… ou se, sem perceber, começamos a voltar.
* Gilmar Teixeira






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