Gilmar Teixeira
O cinema da garagem de casa
Esses dias, sentado numa das cadeiras do Centro Cultural Amélio Amorim, assistindo a uma aula sobre montagem cinematográfica, fui levado, como num travelling emocional, direto à minha infância. Lá estavam os jovens aprendizes de cinema, concentrados, ajustando cortes, efeitos e transições num computador moderno. Mas, pra mim, o verdadeiro filme começou a passar na tela da memória.
Lembrei-me do tempo em que eu mesmo era o montador, roteirista, projecionista e dono da sala de exibição. Não havia computador, nem curso, nem câmera digital. Havia sobras. Sobras preciosas dos rolos de filmes descartados pelos cinemas da cidade — o Cine Tupy, o Palace, o Coliseu — e também pelos cinemas da CHESF, o CPA e o COPA. Era ali, no lixo nobre da cultura, que eu encontrava tesouros.
Ah, o Tenente Iran... figura lendária daqueles tempos. Mesmo os filmes já tendo passado pela censura rigorosa de Brasília, era ele quem dava a última tesourada antes de a película ser exibida ao público. Qualquer cena mais quente, mais ousada, era impiedosamente cortada. E lá ia eu, feito arqueólogo do cinema, vasculhar o lixo em busca daquelas relíquias proibidas.
Com jeitinho e fita adesiva, eu emendava os pedaços: uma luta de karatê emendava num beijo proibido, que logo cortava para uma cena bíblica grandiosa ou para um duelo de faroeste. Era uma colcha de retalhos cinematográfica, mas ali, naquele caos criativo, nascia o nosso cinema. Tudo era artesanal. Tudo era magia.
A sala de exibição? A garagem de casa. Com cadeiras de madeira emprestadas, um lençol esticado como tela e um projetor velho, que fazia mais barulho que imagem. Mas o público vinha — e como vinha! A meninada da rua, das adjacências, todo mundo queria ver o que o “cinema do Gilmar” ia passar naquela noite. Era lotação garantida, pipoca improvisada e muita alegria.
Naqueles dias, a arte não precisava de luxo, nem de recursos. Bastava paixão, criatividade e uma alma sonhadora. E assim, entre recortes censurados e fitas de fita, nasceu o meu amor pelo cinema.
Hoje, vendo os alunos aprenderem técnicas e linguagens cinematográficas, fico feliz. Mas também sorrio por dentro, porque sei que, lá atrás, naquela garagem transformada em sala de exibição, já se fazia cinema com o que se tinha — e com tudo o que se era.
Porque cinema, no fim das contas, não é apenas a arte de contar histórias. É também a arte de lembrar. E enquanto houver lembrança, a sessão continua.




COMENTÁRIOS