Gilmar Teixeira
Circo, Palhaços e a Bomba de Zé Miúdo
Foto: Arquivo Gilmar TeixeiraPaulo Afonso nos anos 70 era um mundo à parte. As construções das usinas hidrelétricas transformavam a cidade em um canteiro de obras gigantesco, com milhares de operários e suas famílias circulando pelas ruas. O dinheiro fluía, e onde havia dinheiro, havia circo. Muitos circos. De todos os tamanhos e tipos. Uns ricos, com lonas reluzentes e arquibancadas bem estruturadas; outros tão simples que a única cobertura era o céu estrelado. Mas havia uma verdade incontestável na época: quanto mais pobre o circo, melhor era o palhaço.
Nós, moleques da cidade, acompanhávamos tudo de perto. A montagem da lona, os ensaios, a chegada dos artistas. E, claro, sempre havia um jeito de conseguir um ingresso sem precisar pagar. Alguns meninos caçavam gatos para alimentar os leões – uma prática cruel que nós, defensores dos animais, nunca aceitamos. Em vez disso, arranjávamos capim para os elefantes e, assim, garantíamos nossa entrada sem ferir nenhum bichinho. Mas a maior aventura era outra: passar por baixo da lona, mesmo tendo dinheiro para pagar. Não era pelo ingresso, era pelo desafio, pela adrenalina.
O dia que o palhaço correu atrás de nós
Certa tarde, eu e Gene passamos pelo circo quando vimos o palhaço se pintando. Na inocência da travessura, soltamos um "Diga aí, palhaço!" sem imaginar a reação que viria. O homem, ainda de cara limpa, pegou ar e saiu correndo atrás de nós pela rua toda. Eu nunca corri tanto na vida! Entramos em casa em disparada e, tremendo, apelamos para o nosso pai:
— Papai, o palhaço do circo quer bater na gente!
Nosso pai, sem entender nada, foi lá tirar satisfação.
— O que meus filhos fizeram pra merecer essa carreira?
O palhaço, bufando, respondeu:
— Eles me chamaram de palhaço!
Meu pai olhou sério e, sem perder a chance, perguntou:
— E o que você é no circo?
— Eu sou o palhaço Xiribica.
— Então pronto! Eles estão certos, né? Afinal, você é palhaço mesmo!
O homem engoliu seco e, com orgulho, confirmou:
— Sou mesmo!
Mas o pior foi quando nosso pai, já meio irritado, fez menção de puxar o revólver da cintura. O palhaço, que até então estava valente, virou um raio e saiu em disparada. Dizem que está correndo até hoje.
A vingança de Zé Miúdo
Mas se teve um episódio que ficou marcado na história dos circos em Paulo Afonso, foi a vingança de Zé Miúdo, o menor da turma – mas o mais abusado.
Numa dessas noites de aventura, resolvemos passar por baixo da lona mais uma vez. Só que, dessa vez, o vigia nos pegou. Corremos feito loucos, mas Zé Miúdo, coitado, não teve a mesma sorte. Pequeno como era, não conseguiu escapar e levou uns cascudos do dono do circo. Saiu de lá chorando e jurando vingança.
E vingança não demorou. No dia seguinte, ele pegou uma caixa de sapato, encheu de papel de bodega e, no meio, colocou uma bomba daquelas que, se você não corresse, levava um braço junto. Comprou o ingresso com o dinheiro do pai e entrou triunfante no circo, esperando o momento perfeito: a dança dos elefantes.
Quando as belas moças entraram montadas nos bichões, o circo inteiro estava em silêncio, admirando o espetáculo. Foi aí que Zé Miúdo invadiu a arena e soltou a bomba com um pavio enorme aceso.
O pânico foi geral.
O público correu para todos os lados, as crianças gritavam, os vendedores derrubavam bandejas de pipoca. Mas o pior foram os elefantes. Com o barulho da bomba explodindo, saíram em disparada pelo circo, com as moças gritando desesperadas em cima deles. Foi a maior confusão já vista.
Zé Miúdo, rápido como ninguém, fugiu por baixo da lona e veio se esconder na nossa casa, no enorme quintal coberto onde ninguém o encontraria. Mas um fofoqueiro da cidade, que tinha visto tudo, levou a polícia até a casa dele. Como ele estava bem escondido conosco, escapou da bronca.
E assim foram os nossos dias em Paulo Afonso: entre lonas de circo, gargalhadas de palhaço e aventuras inesquecíveis. Hoje, quando lembramos dessas histórias, não dá para não rir. E a gente ainda se pergunta: será que o palhaço Xiribica ainda está correndo?



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