Gilmar Teixeira
No Tempo das Lutas Livres
Divulgação Houve um tempo em Paulo Afonso em que a cidade se dividia entre dois mundos separados por um muro. De um lado, o Acampamento da CHESF, com seus clubes de luxo, piscinas azuis, cinemas de poltronas macias e bailes cheios de moças bem vestidas. Do outro lado do muro — que o povo chamava de "o muro da vergonha" —, ficávamos nós, da Vila Poty, com nossas ruas de barro, sem esgoto, sem escola imponente, simples, mas com um bom ensino, e com apenas um posto de saúde, na rua das Flores, que mais parecia um puxadinho que só sabia aplicar injeção e vacina em menino buchudo.
Mas quem é de pouco, aprende a fazer muito. E se do lado de lá tinha tênis, natação e cinema importado, do lado de cá, nossa diversão era o futebol na rua, os cinemas da Rua da Frente, as conversas na calçada e, claro, os circos, que apareciam todo mês, vindos de tudo quanto era canto do Brasil.
Só que o circo da época não era só palhaço, trapezista e rumbeira. Tinha uma atração que lotava arquibancada mais do que final de campeonato: as lutas livres! Sucesso na televisão, elas desciam do vídeo preto e branco e vinham pro picadeiro, trazendo junto os heróis e vilões da luta: Ted Boy Marino, Euclides, Fidelão...
E o melhor — ou o pior — é que os lutadores adoravam chamar algum valente da plateia pra subir no ringue. E não faltava cabra macho se oferecendo, achando que era fácil encarar aquele povo forte que parecia esculpido no próprio cimento da CHESF. Resultado? Era surra, queda, mata-leão e tapa até não querer mais. O povo ria, se acabava, mas quem apanhava passava era vergonha. Tinha uns que até sumiam da cidade, de tanta resenha que pegava.
Mas um dia, quem resolveu se meter foi um vizinho nosso, conhecido na rua inteira como Tarzan. Homem forte, peito estufado, parecia que tinha nascido abraçado num pé de umbu. Tarzan não tinha medo nem de assombração, quanto mais de lutador de circo.
Naquela noite, no circo de Machadinho, Fidelão chamou um desafiante e, antes que terminasse a frase, lá estava Tarzan pulando dentro do picadeiro. Só esqueceram de avisar pra ele que na luta livre tem regra, tem encenação, tem teatro. Só que Tarzan não sabia disso... e parece que nem Fidelão lembrava.
Bate o sino, começa a luta... e logo Fidelão acerta aquele tapa clássico no pé do ouvido, só pra intimidar. Mas aí, amigo, Tarzan viu foi o mundo rodar, girou na base da raiva e desceu-lhe um murro no meio do peito que fez Fidelão cambalear igual poste mal enterrado.
O povo ficou sem entender:
— Ué, isso é combinado, não?
Mas não era mais.
Tarzan ficou doido, deu um grito de King Kong, e aí o picadeiro virou ringue de UFC nordestino: tapa, murro, chute, rasteira, gravata, e nem padre separava mais.
Fidelão, que não ia querer passar vergonha na frente de tanto sertanejo, apelou. Tirou uma pimenta escondida no calção, esfregou nos olhos de Tarzan... e aí foi a derrota do nosso herói. Tarzan se debatia, coçando os olhos, parecendo que tinha caído dentro de uma plantação de malagueta. Foi nesse embalo que Fidelão pegou, deu um mata-leão, e Tarzan bateu no chão três vezes, pedindo arrego, pra não morrer.
Só que o povo percebeu a malandragem da pimenta. Quando descobriram, a arquibancada virou revolução. Queriam linchar Fidelão na tora, na vara e na mão. O lutador não viu outra saída: fugiu por baixo da lona do circo, igual gato no telhado. Dizem que pulou três quintais e sumiu nas moitas da beira da pista.
E até hoje, se perguntar lá na Vila Poty, vão dizer que Fidelão nunca mais voltou pra essas bandas. E se voltou, veio disfarçado, porque ainda deve a surra que o povo queria dar. Já Tarzan, esse virou lenda viva. Onde chega, alguém puxa o assunto:
— Foi tu mesmo que quase derrubou Fidelão?
E ele sorri, ajeita o chapéu e responde:
— Se não fosse aquela pimenta...
E assim eram nossos tempos. Sem Netflix, sem internet, sem conforto, mas com circo, riso, luta, resenha e histórias que valem ouro, guardadas no baú da memória do sertão.
* Gilmar Teixeira




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