Aldo Carvalho
O impressionante, efetivo e eficaz triunfo do marketing da direita: Quando o dominado defende os privilégios do dominante
Talvez uma das maiores vitórias políticas e culturais do nosso tempo, no campo do marketing, não tenha sido eleger governos, aprovar reformas ou conquistar maiorias parlamentares. Talvez tenha sido algo muito mais sofisticado: convencer milhões de pessoas que vivem do próprio trabalho a defender interesses que não são os seus.
Convencer um bilionário a defender a manutenção dos privilégios dos bilionários não tem nada de extraordinário. É esperado. É quase um reflexo biológico do sistema. Quem acumula riqueza, patrimônio e poder naturalmente buscará preservá-los. Isso não é mistério nem exige grande engenharia intelectual.
O verdadeiro feito digno de estudos aprofundados em sociologia, psicologia social e comunicação política é convencer alguém que acorda às cinco da manhã, enfrenta transporte precário, paga aluguel, parcela compras no cartão, sofre com a inflação dos alimentos e depende, em alguma medida, de serviços públicos, a acreditar que sua principal missão política é proteger os interesses daqueles que possuem fortunas capazes de atravessar várias gerações sem necessidade de trabalho.
É um paradoxo extraordinário.
O trabalhador que teme o aumento do preço da carne frequentemente defende reduções tributárias que beneficiam, sobretudo, patrimônios milionários. O cidadão que depende do SUS repete discursos contra o investimento estatal em políticas públicas. O indivíduo que jamais terá acesso aos mecanismos de acumulação reservados aos grandes conglomerados econômicos passa a enxergar qualquer proposta de redistribuição de renda como uma ameaça pessoal.
É como se a pessoa que está no porão de um navio passasse a se preocupar mais com o conforto da primeira classe do que com a própria condição de viagem.
O mais curioso é que essa adesão raramente ocorre a partir de uma compreensão profunda do funcionamento das estruturas econômicas. Muitas vezes, ela nasce da crença de que existe uma relação de interesses compartilhados entre o bilionário e o trabalhador comum. Como se ambos ocupassem posições equivalentes no jogo econômico.
Mas não ocupam.
Enquanto um luta para pagar uma prestação, o outro administra fundos de investimento. Enquanto um vende horas de trabalho para sobreviver, o outro obtém renda por meio da propriedade do capital. Enquanto um está sujeito às oscilações do mercado, o outro frequentemente possui influência suficiente para moldá-las.
E aqui reside o coração da contradição: a concentração extrema de riqueza não é apenas uma questão moral ou ideológica; é também uma questão de poder. Quem controla riquezas gigantescas controla meios de comunicação, influencia pautas públicas, financia campanhas, participa da formulação de políticas e possui instrumentos de pressão que estão completamente fora do alcance da imensa maioria da população.
Quando alguém pobre ou pertencente à classe trabalhadora ignora esse desequilíbrio e passa a defender os interesses da elite econômica como se fossem automaticamente os seus, não está praticando apenas uma escolha política legítima que, em uma democracia, é um direito absoluto. Está, muitas vezes, desconsiderando a profunda assimetria de poder que organiza a sociedade.
Não se trata de demonizar ricos nem de santificar pobres. Trata-se de compreender posições estruturais.
O bilionário sabe exatamente por que defende menos impostos sobre grandes fortunas. O grande proprietário sabe exatamente por que defende determinadas regras econômicas. O investidor sabe exatamente onde seus interesses estão.
A pergunta que permanece é: o trabalhador sabe?
Porque há uma diferença importante entre defender uma ideia após compreender integralmente suas consequências e defendê-la acreditando que existe uma identidade de interesses onde, na prática, existe uma relação profundamente desigual.
Talvez o grande sucesso da direita contemporânea esteja justamente aí. Não em convencer os ricos a permanecerem ricos. Isso é simples. O feito impressionante foi convencer parte dos pobres a enxergarem os interesses dos ricos como se fossem uma extensão natural dos seus próprios interesses.
É uma operação cultural tão eficiente que transforma beneficiários de políticas públicas em adversários dessas mesmas políticas. Transforma trabalhadores em defensores de estruturas que concentram renda. E faz pessoas que jamais serão convidadas para a mesa do banquete acreditarem que sua principal tarefa é proteger a toalha dos proprietários da festa.
Por isso, antes de defender qualquer proposta econômica, talvez seja útil uma pergunta simples: quem ganha concretamente com ela?
A resposta nem sempre revelará uma conspiração. Mas frequentemente revelará algo mais importante: a posição de cada grupo dentro da estrutura de poder.
E compreender essa posição é o primeiro passo para que cidadãos possam fazer escolhas políticas conscientes não baseadas em promessas, slogans ou campanhas de marketing brilhantes, mas na análise concreta de quem acumula os benefícios e quem suporta os custos de cada modelo de sociedade.




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