Gilmar Teixeira
PEDRINHO, O GOLEIRO, O AMIGO, QUE DEFENDEU E ESCREVEU A HISTÓRIA DE PAULO AFONSO, FOI JOGAR A ÚLTIMA PARTIDA, NO CÉU
Foto: Pedrinho, o goleiro que preservou a memória do nosso futebolHá partidas que a gente nunca gostaria de jogar.
Hoje, o apito soou diferente. Não houve prorrogação, não houve defesa impossível, não houve tempo para mais uma bola. Depois de lutar bravamente pela vida, Pedrinho partiu. E nós, que ficamos deste lado do campo, sentimos o silêncio de uma arquibancada vazia.
Desde as margens sagradas do Velho Chico, onde o vento parece conversar com as caraibeiras e as águas carregam histórias de tantas gerações, começa a trajetória de Pedro Ferreira, o nosso Pedrinho.
Ainda menino, veio com os pais de Glória para o povoado da Forquilha, acompanhando o nascimento de uma nova cidade. Paulo Afonso crescia entre o sertão, as águas do São Francisco, a construção da usina e os sonhos de tantos homens e mulheres que chegaram para ajudar a construir uma história.
E Pedrinho construiu a sua.

Nas quatro linhas, escolheu uma posição que exigia coragem. Enquanto outros queriam fazer gols, ele queria evitá-los. Enquanto muitos sonhavam em balançar as redes, Pedrinho sonhava em protegê-las.
Debaixo das traves, tornou-se o Brucutú.
Vestiu camisas, defendeu clubes, seleções e amigos. Passou pelo Olímpico, GEPA, Banguzinho, COPA, Juventus, Caveira e tantos outros espaços onde o futebol de Paulo Afonso escreveu suas páginas. Jogou nos campos, nos babas, nas disputas e nas amizades que somente o futebol é capaz de construir.
Conheceu grandes nomes, aprendeu com mestres da posição e fez da defesa uma arte.
Mas talvez a maior defesa de Pedrinho tenha acontecido muitos anos depois de ele pendurar as luvas.
Ele passou a defender a memória.

Aquele menino que um dia saltava para impedir que a bola entrasse no gol passou a saltar contra o esquecimento. E fez isso com a mesma coragem que carregava quando era goleiro.
Pedrinho sabia tudo.
Sabia dos times antigos, dos jogadores, dos campeonatos, dos dirigentes, dos campos, dos babas, das camisas e das histórias que muitos já não lembravam. Era uma verdadeira enciclopédia viva do futebol de Paulo Afonso.
Perguntava-se sobre um time antigo?
Pedrinho sabia.
Queria lembrar quem jogou em determinada época?
Pedrinho sabia.
Queria recuperar uma história perdida no tempo?
Lá estava ele, com uma lembrança, uma fotografia, um documento ou simplesmente aquela memória guardada na cabeça e no coração.
E assim, enquanto muitos deixavam o passado desaparecer, Pedrinho fazia o contrário: recolhia os pedaços da memória e devolvia a Paulo Afonso aquilo que o tempo tentava levar.
Criou o grupo Recordações de Paulo Afonso, transformando fotografias antigas, nomes esquecidos e histórias de outros tempos em encontros entre passado e presente.
Ali, cada fotografia era uma lembrança.
Cada nome era uma vida.
Cada camisa era uma história.
Cada jogador era alguém que, de alguma maneira, ajudara a construir Paulo Afonso.
E Pedrinho sabia disso.

Também foi dirigente, secretário da Liga Desportiva de Paulo Afonso, diretor, orientador e presidente do Caveira, clube que tanto amou e ao qual dedicou parte importante de sua vida.
Talvez não seja por acaso que seu último ato no futebol tenha sido justamente no Caveira.
Como se estivesse fechando um ciclo.
Como se dissesse: “Aqui termina a minha missão dentro de campo.”
Depois, vieram os últimos anos.
E Pedrinho voltou-se ainda mais para aquilo que verdadeiramente importava: a família, os amigos, as lembranças e a história.
Foi esposo.
Foi pai.
Foi filho.
Foi irmão.
Foi amigo.
Foi companheiro.
Foi aquele homem que não apenas viveu a história de Paulo Afonso, mas ajudou a contá-la.
Funcionário da COELBA, tornou-se conhecido como Pedrinho da Coelba. Mas, para muitos de nós, ele era simplesmente Pedrinho.

O goleiro.
O amigo.
O irmão.
O homem que conhecia a cidade por dentro.
Hoje, Paulo Afonso fica um pouco mais silenciosa.
Fica órfã de uma memória viva.
Ficam órfãos os amigos, os companheiros de futebol, os pesquisadores, os admiradores de nossa história e todos aqueles que, em algum momento, bateram à porta da memória de Pedrinho em busca de uma informação.
E ele sempre tinha alguma coisa para contar.
Agora somos nós que teremos de contar a história dele.
Porque homens como Pedrinho não desaparecem completamente.
Eles permanecem nas fotografias.
Nas camisas antigas.
Nos campos de futebol.
Nos nomes dos jogadores.
Nas conversas dos amigos.
Nas páginas dos livros.
Nas lembranças de quem conviveu com ele.
E, sobretudo, permanecem na própria história da cidade que ele tanto amou.
Pedrinho passou a vida defendendo.
Primeiro, defendeu as traves.
Depois, defendeu seus clubes.
Defendeu seus amigos.
Defendeu sua família.
E, por último, defendeu aquilo que talvez fosse sua maior paixão: a memória de Paulo Afonso.
Hoje, porém, o goleiro não precisa mais defender nada.
A última bola passou.
O último apito soou.
E nós, emocionados, olhamos para o campo vazio.
Mas sabemos que, em algum lugar onde o tempo não envelhece e a saudade não dói, Pedrinho deve estar novamente debaixo das traves.
Talvez com as velhas luvas.
Talvez esperando mais uma bola.
Talvez cercado por aqueles companheiros que também já partiram.
E quando alguém perguntar por que ele ainda está ali, talvez a resposta venha simples, como eram as coisas que realmente importavam para ele:
“Estou defendendo a história.”
Adeus, Pedrinho.
Hoje Paulo Afonso perde um filho.
O futebol perde uma memória.
Os amigos perdem um irmão.
A família perde um esposo, um pai e um filho abençoado.
E nós perdemos um homem que sabia que uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas e monumentos.
Uma cidade é feita de gente.
E Pedrinho foi uma dessas pessoas que ajudaram a fazer Paulo Afonso ser aquilo que ela é.
Descanse em paz, amigo.
As suas luvas podem ter sido guardadas.
Mas as suas defesas continuarão para sempre.
E enquanto houver alguém contando a história de Paulo Afonso, Pedrinho continuará em campo.
Gilmar Teixeira



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