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Paulo Afonso,27/10/2026

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Aldo Carvalho

Exorcizar a Universidade?!!! Sobre fanatismo, intolerância e a negação da democracia

📸: Divulgação
Exorcizar a Universidade?!!! Sobre fanatismo, intolerância e a negação da democracia UNEB Campus VIII - Paulo Afonso/BA

A recente declaração atribuída ao deputado estadual Diego Castro, na qual manifesta a intenção de “exorcizar” a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), especialmente no contexto do Campus VIII, em Paulo Afonso, ultrapassa os limites da divergência política legítima e ingressa em um terreno perigoso para qualquer sociedade democrática: o da intolerância travestida de convicção religiosa. Segundo a notícia reproduzida na Tribuna Paulo Afonso, a fala gerou forte repercussão pública e críticas pela forma como uma instituição universitária foi apresentada como objeto de enfrentamento de natureza religiosa e política.

É preciso afirmar, com toda a clareza, que universidades não são templos, partidos ou seitas. Universidades são espaços destinados ao livre exercício da razão, da pesquisa, da produção de conhecimento e do debate crítico. Sua natureza é justamente permitir que distintas correntes filosóficas, religiosas, científicas, políticas e culturais coexistam em permanente diálogo, tensão e construção intelectual. A universidade pública não existe para confortar crenças particulares. Ela existe para desafiar certezas, confrontar dogmas e ampliar horizontes de compreensão da realidade.

Nesse sentido, falar em “exorcizar” uma universidade revela uma profunda incompreensão acerca da função social da educação superior. O termo não opera como uma crítica acadêmica, pedagógica ou administrativa. Ele sugere a existência de um mal a ser expurgado, de uma contaminação moral a ser eliminada, de um inimigo a ser combatido. Essa lógica maniqueísta, típica dos ambientes marcados pelo fundamentalismo religioso e pelo extremismo ideológico, é incompatível com os fundamentos constitucionais da liberdade de pensamento, da liberdade religiosa e da autonomia universitária.

O problema torna-se ainda mais grave quando tal discurso parte de um agente investido de mandato popular. Parlamentares possuem plena liberdade para criticar universidades, seus currículos, suas produções científicas ou suas orientações pedagógicas. Aliás, a crítica institucional é parte essencial da democracia. O que não se pode naturalizar é a substituição do debate racional pela retórica da guerra espiritual. Conforme destacado na matéria, a própria repercussão pública decorreu da percepção de que a religião foi mobilizada como instrumento de enfrentamento político contra uma instituição pública de ensino.

Há um aspecto adicional que merece reflexão. Ao longo das últimas décadas, consolidou-se em determinados segmentos do neopentecostalismo uma visão dualista do mundo, na qual a realidade passa a ser dividida entre espaços supostamente "consagrados" e espaços considerados "tomados pelo mal". Essa lógica, quando transposta para a arena política, produz consequências preocupantes. A divergência intelectual deixa de ser tratada como diferença legítima para ser interpretada como manifestação demoníaca. O adversário deixa de ser alguém com quem se debate para se transformar em alguém que deve ser combatido e eliminado simbolicamente.

A história ensina que é justamente aí que reside o perigo. Sempre que a política abandona o campo da argumentação e passa a operar no terreno da salvação moral dos "puros" contra os "impuros", abre-se espaço para a intolerância, para a perseguição simbólica e para a erosão das instituições democráticas.

Mais preocupante ainda é observar que esse tipo de retórica frequentemente caminha ao lado de um discurso de hostilidade à ciência e à produção de conhecimento. Não por acaso, universidades têm sido alvos recorrentes de setores que enxergam a pesquisa científica, o pluralismo cultural e a liberdade acadêmica como ameaças à manutenção de determinadas visões de mundo. O problema não está na religiosidade em si. A fé constitui dimensão legítima da experiência humana e merece integral respeito. O problema surge quando convicções religiosas são convertidas em instrumento de deslegitimação do conhecimento científico ou de ataque à liberdade de pensamento.

A UNEB, como corretamente registra a matéria, não pertence a um partido, a uma ideologia ou a um grupo religioso específico. Ela é patrimônio da sociedade baiana e abriga pessoas de diferentes crenças, convicções e orientações intelectuais. Justamente por isso, deve ser defendida como espaço de convivência democrática. Em seus corredores coexistem estudantes evangélicos, católicos, espíritas, adeptos das religiões de matriz africana, agnósticos, ateus e pessoas sem qualquer vinculação religiosa. Essa diversidade não é um problema a ser corrigido. É uma riqueza a ser preservada.

Do ponto de vista da democracia, a verdadeira grandeza de uma universidade não está em produzir consensos. Está em produzir condições para que diferentes perspectivas possam ser debatidas sem medo, sem censura e sem intimidação. Quando alguém propõe "exorcizar" um ambiente acadêmico, não está apenas atacando uma instituição. Está, consciente ou inconscientemente, atacando a própria ideia de pluralismo.

Como ensinava Paulo Freire, a educação é um ato de liberdade. Como recorda Edgar Morin, a complexidade do mundo não pode ser reduzida a explicações simplistas e binárias. E como nos adverte Hannah Arendt, a esfera pública somente sobrevive quando preservamos o espaço comum onde diferentes visões de mundo podem coexistir sem que uma pretenda aniquilar a outra.

Por isso, a resposta democrática a episódios dessa natureza não deve ser a intolerância inversa nem a perseguição religiosa. Deve ser mais universidade, mais ciência, mais debate público, mais liberdade acadêmica e mais compromisso com os valores constitucionais. O fanatismo prospera na simplificação. A universidade, por definição, existe para lembrar que a realidade humana é complexa demais para caber nos limites estreitos de qualquer dogma.

E talvez seja justamente essa capacidade de cultivar a dúvida, o pensamento crítico e a diversidade que incomode aqueles que preferem a segurança das certezas absolutas à difícil, porém libertadora, tarefa de pensar.



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