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Paulo Afonso,27/10/2026

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Aldo Carvalho

Entre a democracia e a barbárie: quando a abundância de informação não impede o abismo

📸: Gerada por IA
Entre a democracia e a barbárie: quando a abundância de informação não impede o abismo

Talvez uma das maiores contradições do século XXI seja esta: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos ao risco da barbárie.


A humanidade colocou no bolso uma capacidade de acesso ao conhecimento que superaria qualquer sonho dos filósofos, cientistas e educadores de séculos passados. Em poucos segundos, um jovem pode acessar bibliotecas inteiras, consultar bases científicas internacionais, acompanhar acontecimentos em tempo real ou dialogar com pessoas de qualquer parte do planeta. Ainda assim, assistimos ao crescimento de discursos de ódio, da intolerância, da desinformação organizada, do negacionismo e da naturalização da violência como método político.


Essa realidade deveria nos provocar um profundo desconforto.


Paulo Freire afirmava que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Em outras palavras, não basta saber ler textos; é preciso aprender a ler a realidade. E talvez seja exatamente aí que resida um dos mais graves desafios do nosso tempo. Estamos formando pessoas capazes de acessar informações, mas nem sempre capazes de interpretar criticamente os contextos em que vivem.


A informação, isoladamente, não produz consciência. Ela pode produzir entretenimento, pode produzir distração, mas também pode produzir manipulação e profundas alienações.


Somente quando relacionada à vida concreta, ao território, à história e às relações de poder ela se transforma em conhecimento capaz de gerar emancipação.


Vivemos um período marcado por intensas disputas geopolíticas, reconfigurações econômicas globais, transformações tecnológicas profundas e crescente radicalização ideológica. Ao mesmo tempo em que surgem novas possibilidades de cooperação entre os povos, cresce também a força de projetos políticos autoritários, excludentes e marcados pela lógica da eliminação do adversário.


Esse fenômeno não ocorre apenas no Brasil. Ele atravessa continentes.


Manifesta-se nas guerras, nos conflitos territoriais, na perseguição de minorias, no enfraquecimento institucional das democracias e na banalização do sofrimento humano.


Quando a morte de civis passa a ser relativizada em função de interesses geopolíticos, quando direitos humanos passam a ser tratados como inconvenientes ideológicos ou quando povos inteiros são reduzidos a estatísticas, estamos diante de sinais inequívocos de regressão civilizatória.


Leonardo Boff há muito nos alerta que a crise ambiental é também uma crise de humanidade. O Papa Francisco, na Laudato Si', nos lembra que tudo está interligado. Não existe separação entre justiça ambiental e justiça social. Não existe sustentabilidade sem dignidade humana. Não existe futuro possível em um planeta onde a lógica da exclusão se torna mais forte do que a lógica da solidariedade.


Ailton Krenak, por sua vez, nos recorda que a arrogância da civilização moderna consiste justamente em acreditar que pode viver desconectada da vida. Quando uma sociedade perde a capacidade de sonhar coletivamente, ela começa a normalizar sua própria destruição.


É impossível refletir sobre democracia e barbárie sem incluir nessa discussão os povos e comunidades tradicionais.


Povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, marisqueiras, geraizeiros, povos de fundo e fecho de pasto, ribeirinhos e tantas outras comunidades não representam apenas grupos sociais específicos. 

Eles guardam formas de existência, conhecimentos, cosmologias e experiências históricas que desafiam a lógica predatória que hoje ameaça o planeta.


Quando um território tradicional é atacado, não estamos diante apenas de um conflito fundiário, quando uma comunidade é invisibilizada, não estamos diante apenas de uma falha administrativa, quando um povo perde acesso ao seu território, sua água ou suas florestas, não estamos diante apenas de uma questão ambiental.


Trata-se da destruição de memórias, identidades, formas de conhecimento e modos de relação com a natureza que a humanidade levou séculos para construir.


Considero, inequivocamente, que uma das expressões mais perversas da barbárie contemporânea seja justamente a incapacidade de reconhecer a importância desses povos para o futuro comum.


Enquanto setores da sociedade insistem em enxergá-los como obstáculos ao desenvolvimento, são eles que mantêm grande parte dos ecossistemas preservados, protegem recursos naturais estratégicos e demonstram, em sua prática cotidiana, que outra forma de relação com a Terra é possível. Não por acaso, os conflitos socioambientais mais intensos de nosso tempo costumam ocorrer exatamente onde interesses econômicos disputam territórios ocupados por povos tradicionais.


A democracia, portanto, não se mede apenas pela realização periódica de eleições. Ela se mede pela capacidade de ouvir os invisibilizados, pela proteção dos vulneráveis, pela garantia dos direitos territoriais, pelo reconhecimento da diversidade cultural e pela construção de instituições comprometidas com a justiça social.


E aqui chego, cito e incluo uma preocupação que considero especialmente urgente, que é a NOSSA JUVENTUDE, e não falo da juventude como problema, falo da juventude como possibilidade histórica, aquela com capacidade e energia para promover as verdadeiras revoluções.


Entretanto, é impossível ignorar que uma parcela expressiva dela se encontra cada vez mais capturada por ambientes digitais estruturados para produzir engajamento emocional, consumo imediato e gratificação instantânea, enquanto algoritmos disputam sua atenção segundo a segundo, temas decisivos para o futuro coletivo perdem espaço para conteúdos superficiais, polarizações artificiais e distrações permanentes.


Isso não significa, necessariamente, que os jovens estejam condenados à alienação, ao contrário, significa que precisamos construir novas formas de educação política e ética cidadã capazes de dialogar com essa realidade.


Precisamos recuperar, na postura desse segmento, a capacidade de perguntar, de duvidar, de investigar, de relacionar os acontecimentos locais com os processos globais, de compreender que democracia, direitos humanos, justiça socioambiental e soberania não são abstrações acadêmicas. SÃO CONDIÇÕES CONCRETAS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM FUTURO HABITÁVEL e DEMOCRATICAMENTE ESTÁVEL.


O que me dói não é a existência da ignorância, ela sempre existirá e faz parte da condição humana, o que me dói é perceber que, cercados por informação, continuamos flertando com caminhos que a própria história já demonstrou serem capazes de produzir sofrimento, violência e destruição.


Sabemos mais do que qualquer geração anterior sobre os riscos do autoritarismo, sabemos mais do que qualquer geração anterior sobre os impactos da degradação ambiental, sabemos mais do que qualquer geração anterior sobre a capacidade destrutiva do ódio e, ainda assim, continuamos caminhando perigosamente na direção desses precipícios.


Talvez a verdadeira disputa do nosso tempo não seja entre governos, partidos ou lideranças. Talvez seja entre duas possibilidades de civilização. De um lado, a democracia entendida como diálogo, dignidade humana, diversidade, justiça social e cuidado com a vida. De outro, a barbárie travestida de normalidade.


A escolha permanece aberta e, justamente porque a história não está escrita, é que ela exige de nós responsabilidade, consciência crítica e coragem.


Afinal, a barbárie nunca chega se anunciando como tal, ela chega quando deixamos de enxergar o outro como humano, ela chega quando o território vira mercadoria, ela chega quando a memória perde espaço para a manipulação, ela chega quando o silêncio vence a consciência.


E ELA CHEGA, SOBRETUDO, QUANDO A SOCIEDADE DESAPRENDE A LER O MUNDO ANTES DE LER AS PALAVRAS.


Por Aldo Carvalho da Silva – 05 de outubro de 2026



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