Aldo Carvalho
Das Bets à Bolsa: quando a jogatina muda de endereço por causa de uma eleição
Durante horas, após o resultado da virada épica nessas eleições presidenciais brasileiras, ouvimos uma explicação tão repetida quanto simplista: a Bolsa cai porque Lula venceu. Como se os humores do mercado fossem a medida última da realidade. Como se a democracia devesse ser avaliada pelo desempenho de gráficos e não pela vontade soberana de milhões de cidadãos.
É uma tese curiosa.
Curiosa porque parte da velha crença de que a sociedade existe para tranquilizar investidores, e não para atender às necessidades do povo. Curiosa porque transforma a Bolsa de Valores em uma espécie de oráculo moderno, substituindo sacerdotes por analistas financeiros e templos por estúdios de televisão.
Mas observemos o fenômeno com mais atenção.
As Bets, tão celebradas por alguns como expressão da liberdade econômica, transformaram a aposta em modelo cultural. Quando parte desse universo passou a sofrer restrições, talvez muitos apostadores não tenham abandonado o hábito. Apenas migraram de mesa.
Saíram do cassino digital e ingressaram no cassino político-financeiro. Apostaram que o povo brasileiro votaria contra si mesmo.
Apostaram que venceria o candidato capaz de oferecer ao mercado o que este mais aprecia: previsibilidade para os lucros e pouca disposição para contrariar interesses consolidados. Apostaram que a população esqueceria sua própria história, ignoraria a memória das desigualdades e aceitaria como inevitável uma agenda construída mais para atender exigências externas do que necessidades nacionais.
E perderam.
Perderam porque existe um detalhe frequentemente ignorado por certos comentaristas econômicos: seres humanos não são apenas agentes de mercado. São sujeitos históricos. Possuem memória, experiências concretas e interesses que nem sempre coincidem com aqueles celebrados nas colunas especializadas de economia.
Naturalmente, os grandes especialistas de plantão não perceberam isso. Refiro-me àquela aristocracia midiática que costuma explicar o Brasil de helicóptero, observando a realidade do alto e estranhando o fato de que quem vive no chão enxerga coisas diferentes.
São brilhantes, dizem. Perspicazes, afirmam. Doutores em projeções, asseguram. Tão doutores, aliás, que passaram meses prevendo um resultado que não ocorreu e, quando a realidade ousou contrariá-los, a culpa passou a ser da própria realidade.
É um mecanismo fascinante.
Karl Marx talvez enxergasse aí a dificuldade de determinadas estruturas em reconhecer que a história não se move exclusivamente pela vontade das elites econômicas. Edgar Morin lembraria que sistemas complexos não costumam obedecer às simplificações ideológicas dos seus observadores e Elliot Aronson talvez observasse que, diante da dissonância cognitiva produzida por previsões fracassadas, torna-se mais confortável culpar o eleitorado do que revisar as próprias convicções.
A verdade é que houve uma aposta.
E aposta elevada.
Apostou-se na derrota de um projeto político identificado com a ampliação da presença do Estado, da inclusão social e da autonomia estratégica do país.
Quando o resultado veio, muitos descobriram que mercados também erram, investidores também se iludem e especialistas também podem confundir desejo com análise.
A Bolsa sentiu, mas a democracia funcionou.
E entre uma oscilação financeira e a manifestação da soberania popular, convém lembrar qual delas possui legitimidade constitucional. A Bolsa cair não significa necessariamente que o país caiu. Da mesma forma que uma Bolsa alta jamais significou, por si só, que o povo estava prosperando. Essa equivalência automática é uma das grandes mistificações do nosso tempo.
Afinal, uma sociedade não se mede apenas pelo humor de investidores. Mede-se pela qualidade de vida do seu povo, pela redução das desigualdades, pela proteção de seus direitos e pela capacidade de construir um futuro compartilhado.
Os gráficos sobem e descem, a história permanece, Lula venceu, a Bolsa reagiu, o mercado recalculou suas apostas e a democracia seguiu seu curso, lembrando aos profetas do catastrofismo econômico uma verdade elementar que atravessa séculos de pensamento político: o povo pode ser ignorado por algum tempo, mas não pode ser definitivamente substituído. Talvez essa seja a maior lição.
Nem toda derrota da especulação representa derrota da sociedade e nem todo prejuízo dos apostadores da Faria Lima constitui tragédia nacional.
Às vezes, é apenas o preço cobrado pela realidade quando ela decide visitar aqueles que passaram tempo demais acreditando que seus desejos eram leis da história.



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