Gilmar Teixeira
O Tempo das Bodegas
DivulgaçãoPaulo Afonso era uma cidade em ebulição. As usinas hidrelétricas em construção traziam gente de todo canto, e a vida fervilhava nas ruas de terra, entre trabalhadores suados e crianças correndo despreocupadas. Mas o coração da vizinhança não batia nos grandes canteiros de obras – ele pulsava nas bodegas, pequenos comércios que eram muito mais que meros pontos de venda.
Na nossa Landulfo Alves, as bodegas eram parte da nossa rotina e da nossa memória. Seu Zé Preto, por exemplo, era quase um parente. Lá fazíamos as compras de casa, e ele sabia exatamente o que cada família precisava, muitas vezes anotando na caderneta para pagar depois, porque confiança valia mais que dinheiro.
No fundo de casa, a rua Otaviano Leandro de Moraes escondia a bodega de Seu Nozinho, um homem que saiu do Brejo em busca de uma vida melhor. Seu forte era a venda de cachaça e cerveja, e o destaque do lugar não era só a bebida, mas o sobrinho Mateus, que fazia as meninas suspirarem ao imitar Jerry Adriani. Ele cantava encostado no balcão, ajeitando o cabelo como um verdadeiro galã, e arrancava olhares encantados das moças da vizinhança.
Já na Alto Novo, brilhou a bodega mais bonita da cidade: a de Seu Manoel. Foi lá que, ainda meninos, eu, Gilmar e Gene tomamos nossa primeira água mineral. Queríamos porque queríamos provar aquela novidade, mesmo com Manoel tentando nos convencer a pegar uma cajuína com pão doce pelo mesmo preço. Mas batemos pé – o dinheiro era nosso, e queríamos a tal água mineral. Quando finalmente provamos, veio a decepção: "É só água, Gene!", eu exclamei, indignado. A risada de Manoel ecoou pelo bar, confirmando que ele já sabia daquele desfecho.
Na rua do Coqueiro, reinava Chico da Bomba, especialista em fogos de São João e inventor do pau de sebo mais famoso da cidade. Todo ano, ele besuntava um tronco com graxa e colocava um prêmio tentador no topo. Mas ninguém nunca pegou aquele dinheiro – o desafio era mais diversão do que vitória.
Um pouco mais à frente, na bodega de Zulmira, não era só o bom atendimento que encantava. Dona Zulmira era uma mulher bonita, e sua filha fazia a meninada suspirar. Os garotos inventavam desculpas para comprar qualquer coisa só para vê-la, saindo do balcão com um sorriso bobo e um pacote de balas na mão.
E havia ainda os Irmãos Baixinhos, donos de uma bodega que era um verdadeiro porto seguro. "O que faltar em casa, aqui tem!", era o lema deles, e cumpriam à risca. Quando tudo fechava, Baixinho ainda estava lá, pronto para salvar qualquer emergência, seja um pacote de fubá ou um refrigerante gelado no fim do dia.
Mas, com o tempo, vieram os supermercados, e um a um, esses pequenos templos do cotidiano fecharam suas portas. As bodegas sumiram, levando consigo as conversas fiadas, a confiança no fiado e a proximidade entre comerciante e freguês.
O progresso chegou, mas deixou um vazio. As bodegas não eram apenas comércios – eram laços, eram histórias, eram vida. Hoje, ao lembrar daqueles tempos, sentimos saudade. E que saudade boa, daquelas que a gente guarda no fundo do coração, junto com o cheiro de cajuína, o barulho dos fogos de Chico da Bomba e o eco das gargalhadas de Seu Manoel.
* Gilmar Teixeira




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