José Ivandro
Antes de publicar, denuncie. Proteger os animais também é proteger a verdade.
Foto: Divulgação Vivemos em uma época em que qualquer pessoa pode registrar uma cena com o celular e, em poucos minutos, compartilhá-la com milhares — ou até milhões — de pessoas. Essa facilidade trouxe uma importante ferramenta para a proteção dos animais. Muitos casos de maus-tratos só vieram à tona porque alguém filmou, fotografou e decidiu agir.
Filmar é importante. Registrar é importante. Mas existe uma etapa que não pode ser ignorada: antes de transformar uma suspeita em julgamento público, é preciso permitir que os fatos sejam investigados.
Quando uma pessoa presencia uma situação que considera suspeita, a atitude mais responsável é preservar as imagens e encaminhá-las imediatamente aos órgãos competentes. Polícia Civil, Polícia Militar, Guarda Municipal, Secretarias de Meio Ambiente e de Proteção Animal, além de outras autoridades responsáveis, possuem os instrumentos necessários para apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis.
Um vídeo de poucos segundos nem sempre revela toda a história. Um animal pode estar doente, debilitado, idoso ou sofrer de alguma enfermidade que somente uma avaliação veterinária é capaz de identificar. Da mesma forma, quando existem indícios de maus-tratos, um registro feito com responsabilidade pode se tornar uma prova importante para responsabilizar o agressor.
O problema começa quando a investigação é substituída pelo tribunal das redes sociais.
A velocidade com que uma imagem circula hoje é infinitamente maior do que a capacidade de verificar seu contexto. Em poucas horas, uma pessoa pode ser condenada pela opinião pública antes mesmo de qualquer apuração técnica ou policial.
A história recente do Brasil oferece exemplos dolorosos das consequências desse tipo de julgamento. Em 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, moradora do Guarujá (SP), foi confundida com uma suposta criminosa após a circulação de um boato nas redes sociais. Ela foi linchada por moradores e morreu em decorrência das agressões. Dias depois, ficou comprovado que era inocente. A tragédia mostrou que informações não verificadas podem produzir consequências irreversíveis.
Isso não significa que as pessoas devam deixar de denunciar.
Muito pelo contrário.
Denunciar é um dever de qualquer cidadão que presencia um possível crime contra um animal. O que se defende é que a denúncia seja feita com responsabilidade, permitindo que os profissionais habilitados realizem a investigação antes que um julgamento público seja estabelecido.
Também é importante refletirmos sobre outro aspecto da sociedade contemporânea.
Casos envolvendo animais costumam despertar enorme comoção social, e isso é positivo, pois demonstra que a população está cada vez mais sensível ao sofrimento dos seres vivos. Entretanto, a intensidade da indignação pública nem sempre acompanha a gravidade dos fatos. Episódios de violência contra crianças, idosos, mulheres ou outras pessoas vulneráveis, por vezes, recebem repercussão muito menor.
Essa constatação não deve servir para diminuir a importância da causa animal. Ao contrário. Ela deve nos lembrar que a empatia não precisa escolher um lado.
Uma sociedade verdadeiramente justa protege os animais contra a violência, protege as pessoas contra acusações sem provas e protege o direito de toda vítima de ter sua situação investigada com seriedade.
A tecnologia nos deu uma poderosa ferramenta para registrar fatos. Que ela seja utilizada para fortalecer a justiça, e não para substituí-la.
Antes de publicar, denuncie.
Antes de compartilhar, preserve as provas.
Antes de julgar, permita que a investigação aconteça.
Porque proteger os animais e respeitar a dignidade das pessoas não são objetivos opostos. São valores que caminham juntos em uma sociedade que acredita na verdade, na responsabilidade e na Justiça.




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