José Ivandro
O JUMENTINHO DO AQUIRAZ E O HOMEM QUE AS REDES SOCIAIS TRANSFORMARAM EM MONSTRO
Foto Meramente IlustrativaUm episódio envolvendo um jumento em Aquiraz levanta uma pergunta incômoda: até onde pode ir a indignação antes que uma denúncia se transforme em condenação?
Existem imagens que provocam indignação. Tem situações que exigem intervenção. Tem animais que precisam ser protegidos.
E tem também um momento em que precisamos parar, respirar e perguntar:
Nós sabemos realmente toda a história?
Um episódio ocorrido em Aquiraz, no Ceará, envolvendo um homem idoso, analfabeto, portador de deficiência mental e seu jumento, ganhou enorme repercussão nas redes sociais. As imagens despertaram revolta, acusações e manifestações de pessoas que entenderam ter presenciado uma situação de maus-tratos.
Uma denúncia de possível violência contra um animal deve ser levada a sério. Sempre.
Mas existe uma diferença fundamental entre pedir que um caso seja investigado e decidir, a partir de algumas imagens, quem é o culpado.
É justamente nessa fronteira que essa história merece ser observada.
Não cabe a este texto dizer se houve ou não maus-tratos naquele episódio. Essa é uma questão que deve ser respondida pela investigação, pela avaliação de profissionais habilitados e pelas autoridades responsáveis.
O que merece reflexão é o que aconteceu depois que as imagens chegaram às redes sociais.
Em poucas horas, uma situação que ainda precisava ser apurada pode transformar uma pessoa em personagem de uma narrativa nacional. E, quando a internet escolhe seu vilão, detalhes, contexto, história de vida e circunstâncias podem desaparecer completamente.
Um homem deixa de ser uma pessoa e passa a ser apenas aquilo que o vídeo diz que ele é.
Denunciar é uma coisa. Condenar é outra
Se alguém presencia uma situação que considera maus-tratos, filmar é importante.
Registrar é importante.
Guardar as imagens é importante.
Comunicar as autoridades é necessário.
Mas talvez seja preciso recuperar uma palavra que perdeu espaço na velocidade das redes sociais:
Responsabilidade.
A finalidade de uma gravação deveria ser ajudar a descobrir o que aconteceu.
Não deveria ser, automaticamente, produzir uma sentença.
Uma imagem registra um momento.
Uma investigação procura compreender a história inteira.
Nem tudo o que parece evidente em uma fotografia ou vídeo necessariamente explica sua causa.
Um animal magro pode ser idoso, estar doente ou possuir alguma condição que exija avaliação veterinária. Uma lesão pode ter diferentes origens. Um comportamento pode ser interpretado de maneira equivocada por quem não conhece o animal.

Isso não significa minimizar maus-tratos.
Significa reconhecer que, justamente quando uma acusação é grave, a apuração precisa ser ainda mais cuidadosa.
Existem médicos-veterinários, peritos, Policia, Ministério Público e Justiça.
Não para impedir denúncias, mas para dar a elas o tratamento que merecem.
Nem todo problema se resolve com condenação
Existe ainda uma diferença importante entre violência deliberada e uma situação que pode ser resultado de desconhecimento, falta de informação, dificuldades financeiras para oferecer determinados cuidados, limitações de acesso a serviços veterinários ou até tradições culturais.
Nem toda deficiência no cuidado significa crueldade.
Às vezes existe ignorância. Às vezes falta orientação. Às vezes faltam recursos.
Se um animal está em uma condição inadequada, mas não existe uma situação de violência grave ou risco imediato, por que a primeira resposta precisa ser a exposição e a condenação pública do proprietário?
Por que não orientar?
Por que não explicar?
Por que não ajudar aquela pessoa a compreender o que o animal precisa?
Por que não indicar um veterinário, um serviço público ou uma entidade de proteção?
Às vezes, salvar um animal não significa apenas retirá-lo de seu dono. Pode significar ensinar seu dono a cuidar melhor dele.
Uma família que não sabe que determinado alimento faz mal ao animal pode ser orientada.
Alguém que não conhece a necessidade de vacinação ou castração pode ser informado.
Um proprietário que não percebe que determinado procedimento causa sofrimento pode aprender uma maneira diferente de fazê-lo.
E, quando existe possibilidade de correção, educar pode ser muito mais transformador do que humilhar.
A proteção animal também passa pela educação.
A denúncia deve proteger. A fiscalização deve orientar quando for possível. A assistência deve ajudar. E a punição deve existir quando necessária.

E quando o trabalho deixou de existir?
Durante séculos, o jumento esteve integrado à vida do sertão.
Transportava pessoas, água, alimentos, lenha e tudo aquilo que precisava vencer longas distâncias onde quase não havia alternativas.
Com o tempo, motos, carros, caminhões, tratores e outras máquinas passaram a ocupar esse espaço.
É natural que a sociedade avance. É natural que o trabalho pesado seja substituído por máquinas sempre que isso for possível.
Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos: o que aconteceu com os animais quando deixaram de ser necessários?

O problema não é simplesmente trocar um jumento por uma motocicleta.
O problema é trocar o animal e depois abandoná-lo à própria sorte.
E aqui está uma pergunta difícil, que merece ser feita sem respostas prontas:
O que é pior para um animal: continuar vivendo dentro de uma relação de trabalho que existe há séculos, sob cuidados e acompanhamento de quem dele depende, ou ser simplesmente descartado quando uma máquina ocupa seu lugar?
Não existe uma resposta que sirva para todas as situações.
Um animal não deve ser submetido a sofrimento, excesso de carga, violência, fome, sede ou condições inadequadas.
Mas também não podemos ignorar que, em muitas comunidades rurais, esses animais fizeram parte da vida familiar durante gerações e eram cuidados justamente porque tinham valor afetivo e utilidade para seus donos.
A substituição do trabalho animal por máquinas deveria representar progresso também para o animal — não o seu abandono.
O problema não é trocar o jumento pela moto. É trocar o jumento pela moto e abandonar o jumento.
Essa questão ajuda a compreender uma tragédia silenciosa.
Muitos jumentos deixaram de ser companheiros de trabalho para se tornar animais sem dono, vagando pelas estradas, expostos à fome, à sede, às doenças e aos atropelamentos.
O que deveria ter sido uma mudança de vida acabou, para muitos, transformando-se em descarte.

Isso não significa romantizar o trabalho animal nem aceitar maus-tratos.
Significa reconhecer que a proteção precisa acompanhar o animal durante todas as etapas de sua vida — inclusive quando ele deixa de ter utilidade econômica para o ser humano.
E os jumentos que não viralizam?
Essa talvez seja a pergunta mais desconfortável.
O Brasil conhece há muito tempo o drama dos jumentos abandonados.
Animais que durante gerações fizeram parte da vida do sertanejo foram sendo substituídos por motocicletas, automóveis, tratores e outras formas de transporte e trabalho.
Alguns acabaram abandonados.
E um animal abandonado às margens de uma rodovia não é apenas uma cena triste. É também um risco para ele próprio e para quem trafega.
Existe ainda uma dimensão maior: a população brasileira de jumentos sofreu uma redução brutal nas últimas décadas.
E há outro capítulo controverso: o abate e a destinação de carne e couro para mercados e indústrias, tema que já provocou mobilização de entidades de proteção animal e atuação de órgãos públicos.
Isso não é argumento para minimizar qualquer possível caso de maus-tratos.
É um convite para ampliar o olhar.
Porque, se realmente nos importamos com esses animais, nossa indignação não pode aparecer somente quando uma imagem viraliza.

Ela precisa existir também quando um jumento é abandonado na estrada.
Quando fica sem água.
Quando é atropelado.
Quando adoece.
Quando desaparece sem que ninguém saiba seu destino.
Quando sua população diminui drasticamente.
Esses animais também precisam de proteção.
A causa animal não pode ser uma causa de ocasião
É perfeitamente possível defender um animal sem transformar uma pessoa em monstro.
Denunciar sem humilhar.
Filmar sem condenar.
Exigir providências sem promover linchamento virtual.
E discordar profundamente de alguém sem retirar dele sua dignidade.
A causa animal precisa de indignação, sim.

Mas precisa também de conhecimento, trabalho, políticas públicas, fiscalização, veterinários, protetores, adoção responsável e castração.
E é aqui que Paulo Afonso oferece exemplos que merecem ser conhecidos.
Enquanto alguns gritam nas redes, outros trabalham
Na cidade, a proteção animal envolve iniciativas da sociedade civil e também políticas públicas.
A ARDAP atua no acolhimento e proteção de animais, mantendo dezenas deles em sistema de lar rotativo.
A Animalia desenvolve trabalho voltado à proteção de animais silvestres, e animais de grande porte, ampliando o olhar para além dos cães e gatos que normalmente ocupam o centro das discussões nas redes.
E existe também a atuação do poder público.
A SUPATAS — Superintendência de Proteção e Cuidados aos Animais de Rua, departamento da Prefeitura de Paulo Afonso, desenvolve ações de proteção e cuidados com animais, integrando a estrutura municipal de atendimento à causa.

Há ainda iniciativas que representam avanços na política pública de proteção animal, como o Castramóvel, viabilizado com recursos conquistados para ampliar o controle populacional, e o Lar Rotativo, cuja construção está avançada.
Nesse processo também merece destaque a atuação do vereador Valmir Rocha, que trabalhou na busca de recursos para essas estruturas.
São trabalhos diferentes, realizados por instituições e pessoas diferentes.
Mas existe algo que os aproxima:
eles continuam quando a câmera é desligada.
É fácil compartilhar uma publicação.
Mais difícil é alimentar um animal abandonado.
Mais difícil é pagar uma consulta veterinária.
Mais difícil é acolher.
Mais difícil é castrar.
Mais difícil é procurar um adotante.
Mais difícil é construir uma estrutura permanente.
É nesse trabalho silencioso que a verdadeira defesa dos animais também acontece.
Não precisamos escolher entre o animal e o ser humano
Talvez essa seja a maior lição.
Não precisamos escolher.
Podemos defender um jumento sem transformar seu dono em monstro.
Podemos denunciar maus-tratos sem destruir reputações.
Podemos proteger animais e respeitar pessoas.
Podemos exigir punição para quem efetivamente cometer um crime e, ao mesmo tempo, defender que ninguém seja condenado antes que os fatos sejam apurados.
Uma coisa não exclui a outra.
Na verdade, é justamente isso que significa viver em uma sociedade civilizada.
A causa animal precisa de indignação.
Mas precisa também de humanidade.
Porque defender os animais não nos dá licença para deixar de ser humanos.

Lar Rotativo em fase final
Talvez a verdadeira medida da nossa preocupação não esteja na quantidade de revolta que conseguimos produzir diante de um vídeo viral.
Talvez esteja no que fazemos quando ninguém está filmando.
Antes de compartilhar, investigue.
Antes de condenar, apure.
Antes de transformar alguém em monstro, conheça a história.
E, se a causa é realmente pelos animais, não espere o próximo vídeo viral para começar a trabalhar por eles.
A verdadeira defesa dos animais começa quando a câmera é desligada.
José Ivandro Brito Ferreira
Tribuna Paulo Afonso




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