Emiliano José
Douradão partiu
Quanta luta, né, meu velho? Quantas batalhas? Vitórias e derrotas, e você sempre na linha de frente, com destemor, desassombro, coragem temerária. Me alegro de dizer: você foi dos melhores seres humanos a passar por minha vida, a me dar o privilégio da amizade, uma amizade sincera, sem limite, lealdade rara, a me acompanhar sempre em tantas lutas, nos mandatos parlamentares, nas muitas campanhas.
Era a voz serena, e não raro muito dura, sem jamais perder a ternura. Um compromisso com a humanidade, com os excluídos, com os trabalhadores, um olhar posto no horizonte, né, meu velho? Perseguindo a utopia, e os pés plantados no chão. Em alguns momentos, parecia taciturno, capaz de explosões. No coração, no entanto, o amor, o carinho, o abraço. Lado, você sempre tinha lado. Nunca lhe faltaram convicções. De esquerda. Um comunista.
Conto um caso. Banco da Assembleia Legislativa. Devia ser ali pelos anos 2005, por aí, começando o espírito de perseguição intensa a Lula, e ele ouvindo o murmúrio de direita na agência. De repente, a explosão. Aos brados, dizia ser do time de Lula, quem quisesse o enfrentasse, e aquele silêncio, as vozes salientes da direita emudeceram, e ele encarando um a um, esperando qualquer gesto, qualquer movimento. Ninguém. Você era assim, né, meu velho?
Foi liderança destacada dos trabalhadores da Ematerba. Chegou a ser considerado o inimigo público número um pelo dirigente da empresa então, e nunca recuou na defesa dos funcionários: madeira que cupim não rói. Você teve ao lado, naquela luta, muita gente: Ana Guedes, Célia Ramos, Dulce Burgos, João Saturnino, tantos, tantas, não é, meu velho? Estivesse numa luta, era pra valer, nenhuma vacilação, diante de ninguém.
Conto outro caso. Você foi amigo, muito amigo, de Wagner, ele mesmo, o ex-governador, senador, a ser reeleito agora. Chegaram a morar juntos na Vila Matos, apartamento de tantas estrepolias, não é, meu velho?
Wagner chega ao governo, em 2007. Um dia, chega para o trabalho, atravessa uma manifestação em frente à Governadoria - trabalhadores da Ematerba, e lá estava você, liderando. Wagner, chegando ao gabinete, liga pra ele: venha almoçar aqui comigo. Você, sem relutar, disse: só iria se junto com meus companheiros. Coerência nunca lhe faltou diante de qualquer um, inclusive face a amigos queridos.
Segundo turno da eleição de Lula, em 1989. Dia anterior ao comício da Barra, fizemos uma pequena reunião, e você soltava os cachorros pra cima do querido Waldir Pires, puto com ele por ter saído do governo e disputado a eleição na condição de vice de Ulysses Guimarães, fragorosamente derrotado.
Dia seguinte, vejo-o, com seu corpanzil, ajudando Waldir a subir no palanque, com todo carinho e atenção. E depois, não é, meu velho, você assessorou Waldir vereador, quando ele assumiu o mandato entre 2013 e 2016. Nunca deixou o ex-governador, tão querido dele.
Está tudo muito bem, a filha podia ir às passeatas, quem era você para impedi-la? Por convicção e respeito às mulheres. Agora, não ia deixar nenhum policial se aproximar dela. Ia ao lado das passeatas, sem que ela percebesse, escondendo-se atrás dos postes, vigiando cada movimento dela, observando se a repressão ousaria se aproximar. Nunca aconteceu. Um pai zeloso, terno, carinhoso, você foi, não meu velho?
Você partiu cedo, meu velho, muito cedo. Ainda tinha muito a viver, a desfrutar dessa existência. Nos deixa cheio de saudades, tenha certeza disso. Mas, eu costumo dizer, é preciso, quando cabe, celebrar a existência das pessoas. Chorar, seja. Mas deixar espaço para a celebração.
No seu caso, meu velho, comemorar a coragem, a condição de comunista, de pessoa imbuída dos mais altos ideais da humanidade, querendo e lutando por um mundo diferente deste, capaz de abraçar a todas, a todos, proporcionar condições de vida dignas às maiorias, aos excluídos, aos deserdados da terra. Você, meu velho, jamais deixou de perseguir tais sonhos. Por eles, viveu. Combateu o bom combate. Semeou a esperança. Nós esperamos ser dignos desse legado.
#Douradão



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