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Paulo Afonso,27/10/2026

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Gilmar Teixeira

A VINGANÇA DOS XAROPES E A NOVA SOCIEDADE

📸: Gilmar Teixeira
A VINGANÇA DOS XAROPES E A NOVA SOCIEDADE

Há muito tempo venho observando, com certa inquietação, as mudanças que vêm ocorrendo em nossa sociedade. De uns tempos para cá, parece que alguma coisa se rompeu nas relações humanas, no comportamento coletivo e, sobretudo, na maneira como as pessoas passaram a expressar suas opiniões, defender suas ideias e tratar aqueles que pensam diferente.


Desde que a extrema direita conquistou espaço no cenário político brasileiro, especialmente após as eleições de 2018, tenho me perguntado: o que está acontecendo com a nossa gente? Será que estamos diante de uma nova realidade social ou apenas assistindo àquilo que sempre existiu, mas que, durante muito tempo, permaneceu escondido atrás das convenções sociais?


Talvez seja um pouco das duas coisas.


O crescimento da extrema direita não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Em diferentes partes do mundo, discursos autoritários, preconceituosos e intolerantes conquistam seguidores, alimentados pelo ressentimento, pela desinformação e pela promessa de encontrar culpados para todas as frustrações humanas. É como se uma parcela da sociedade tivesse descoberto que gritar mais alto pode parecer mais fácil do que apresentar argumentos.


E aqui me permito uma reflexão provocadora: será que estamos vivendo a vingança dos xaropes?


Refiro-me àqueles que, durante a vida, nunca conseguiram se destacar pelo conhecimento, pela inteligência emocional ou pela capacidade de argumentar. Àqueles que, na escola, não encontravam respostas para as perguntas, mas que, na vida adulta, descobriram nas redes sociais um palanque onde podem falar de tudo, mesmo quando pouco sabem sobre quase nada.


É a velha história de quem nunca teve argumentos para vencer uma discussão e, agora, acredita que a agressividade substitui a inteligência. De quem confunde opinião com conhecimento, preconceito com coragem e grosseria com sinceridade.


Mas a questão vai além da escola, das relações pessoais ou das frustrações individuais.


Penso também naquele sujeito que nasceu pobre, conseguiu enriquecer e, depois de alcançar uma condição financeira melhor, passou a desprezar justamente aqueles que continuam enfrentando as dificuldades que ele próprio conheceu. Como se o sucesso individual apagasse sua origem e lhe concedesse o direito de julgar os que ficaram para trás.


Há também quem tenha nascido em berço de ouro e aprendido que o dinheiro abre portas, compra privilégios e facilita caminhos. Alguns chegam a acreditar que tudo pode ser comprado, inclusive o prestígio intelectual, como se um diploma fosse suficiente para fabricar conhecimento e como se a formação acadêmica pudesse substituir o caráter.


E há, ainda, aqueles que perderam oportunidades por decisões equivocadas, mas preferem responsabilizar exclusivamente o sistema, os governos ou a sociedade por todos os seus fracassos. É mais confortável encontrar um culpado do que reconhecer os próprios erros.


É claro que não podemos generalizar. Existem pessoas pobres, ricas, instruídas ou sem escolaridade que demonstram enorme dignidade, generosidade e consciência social. A condição econômica e o grau de instrução, por si sós, não definem o caráter de ninguém. O problema começa quando alguém transforma suas frustrações em ressentimento e seu ressentimento em instrumento de ódio.


O que me preocupa, portanto, não é que pessoas antes silenciadas tenham conquistado voz e espaço. Isso é próprio da democracia. O que preocupa é quando esse espaço passa a ser utilizado para legitimar a intolerância, atacar direitos, desprezar a ciência e ridicularizar quem defende a igualdade e a justiça social.


Durante muito tempo, muita gente aprendeu a esconder seus preconceitos por receio da reprovação pública. Hoje, em determinados ambientes, parece haver uma autorização coletiva para dizer o que antes se dizia apenas às escondidas. O insulto virou entretenimento, a humilhação ganhou aplausos e a ignorância, quando acompanhada de convicção, passou a ser confundida com uma espécie de superioridade.


As redes sociais contribuíram para esse cenário. Nelas, uma informação falsa pode alcançar milhares de pessoas antes que a verdade consiga atravessar a primeira esquina. O conhecimento exige estudo, paciência e disposição para rever certezas. Já o preconceito costuma oferecer respostas rápidas, inimigos convenientes e explicações simples para problemas complexos.


E é justamente aí que mora o perigo.


Uma sociedade que deixa de valorizar o conhecimento, a educação, a cultura e o pensamento crítico torna-se mais vulnerável à manipulação. Quando o cidadão passa a desprezar os fatos porque eles contrariam suas convicções, o debate público perde qualidade e a democracia começa a adoecer.


Não se trata de exigir que todos pensem da mesma maneira. Ao contrário: a democracia vive da diversidade de opiniões, da liberdade de expressão e do direito à divergência. Mas liberdade não significa ausência de responsabilidade, assim como discordar não concede a ninguém o direito de desumanizar o adversário.


É possível ser de direita ou de esquerda, defender posições conservadoras ou progressistas, sem abandonar o respeito, a honestidade intelectual e a solidariedade humana. O problema não está simplesmente na existência de diferentes correntes políticas, mas na radicalização que transforma o outro em inimigo e faz da intolerância uma bandeira.


Por isso, quando olho para essa nova realidade brasileira, não consigo deixar de perguntar: que sociedade estamos construindo para as próximas gerações? Uma sociedade em que o mérito será medido pela capacidade de humilhar? Em que a riqueza valerá mais do que a dignidade? Em que a mentira terá mais força do que a verdade e o grito será considerado mais importante do que o argumento?


Se for esse o caminho, precisamos repensar urgentemente nossos valores.


A educação não deve servir apenas para conquistar diplomas, mas para ensinar a pensar. A cultura não pode ser tratada como um luxo, mas como instrumento de emancipação. A política não deveria ser uma guerra permanente entre brasileiros, mas um espaço de disputa de ideias e de construção de soluções para os problemas coletivos.


Talvez a chamada vingança dos xaropes seja, na verdade, o sintoma de uma sociedade que deixou de investir suficientemente na formação crítica de seus cidadãos e que, em muitos momentos, passou a premiar a provocação em vez da reflexão.


Não devemos combater a ignorância com humilhação, nem o preconceito com outro preconceito. Precisamos enfrentá-los com educação, informação, firmeza democrática e compromisso com os direitos humanos.


Porque uma coisa é dar voz a quem nunca foi ouvido. Outra, muito diferente, é transformar essa voz em instrumento para retirar a voz dos demais.


A verdadeira grandeza de uma sociedade não está em descobrir quem pode gritar mais alto, acumular mais dinheiro ou humilhar mais pessoas. Está em reconhecer que ninguém é tão poderoso que dispense a ética, nem tão humilde que não mereça respeito.


E, no fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja o que essa gente tem na cabeça, mas o que nós, enquanto sociedade, estamos deixando de colocar nela: conhecimento, empatia, consciência histórica e respeito à democracia.


Afinal, uma sociedade não se torna melhor apenas porque muda de governo, de partido ou de ideologia. Ela evolui quando seus cidadãos aprendem a pensar por conta própria, respeitar as diferenças e compreender que a liberdade de cada um só tem verdadeiro valor quando convive com a dignidade de todos.


Essa é a sociedade que precisamos construir. Não a dos xaropes, dos intolerantes ou dos donos da verdade, mas a dos cidadãos conscientes, capazes de discordar sem odiar e de defender suas convicções sem abrir mão da humanidade.


Gilmar Teixeira



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