Emiliano José
Lula e os Vampiros
Na disputa eleitoral desse ano, as classes dominantes locais estavam perfiladas de um único lado, salvo naturalmente as honrosas exceções, a serem encaradas mais como fruto de atitudes individuais do que como opção de classe. Eu ficarei contente, verdadeiramente, se for desmentido porque considero a política do governo Lula avessa a qualquer ranço ao mundo empresarial. E por isso, a posição do andar de cima parece um paradoxo, mas não é: é parte da tradição dele, centenária.
Insisto, e essa é uma discussão a requerer muito aprofundamento, Lula tem sido levado a não opor obstáculos ao mundo financeiro, até porque as chamadas regras da austeridade amarram a maioria dos governos ocidentais, inclusive o nosso, obrigado a se render parcialmente seja aos ditames de bancos centrais, cujas políticas em geral confrontam com as orientações políticas dos estados, e só favorecem o mundo do capital.
Nossas classes dominantes, inteiramente submetidas ao capital financeiro, hoje hegemônico em grande parte do planeta, e o próprio mundo das finanças, querem sempre mais e mais. Um governo reformista, como o do Lula, não corresponde a essa vocação vampiresca dos senhores do dinheiro, cuja vocação é sangrar o quanto possa o andar de baixo, pouco se lixando para as vítimas decorrentes da política implacavelmente concentracionista deles.
E tais classes fazem das tripas coração de modo a que nenhum governo mexa nos privilégios centenários delas. Por isso, por tal vocação, Lula jamais foi aceito pelos vampiros, não obstante faça governos reformistas, impedido muitas vezes de dar passos mais ousados por conta das amarras impostas pelo mundo do capital, amarras estendidas a praticamente a todo o Ocidente.
Ao mundo da Faria Lima, se for contra o Lula, qualquer um serve, qualquer bandido de esquina, qualquer miliciano, qualquer mandante de assassinatos, qualquer sujeito envolvido em crimes hediondos.
Não importa se não tiver trabalhado um único dia, se tiver vivido de expedientes heterodoxos, ilícitos, nebulosos, se acumulou fortunas inexplicáveis, não importa se filho de um golpista preso, irmão de um fugitivo, se buscou milhões nas mãos do protagonista do maior escândalo financeiro do País, se um vorcariano, pouco interessa.
A Faria Lima passa por cima de tudo isso, ignora, ou até admira a esperteza de um cidadão com tais características pois ele certamente compreenderá e apoiará a política de sangrar os de baixo, a conter políticas distributivistas, como Bolsa Família, Salário Mínimo, BPC, Aposentadoria, Pé de Meia, Prouni, pleno emprego, essas tantas besteiras inventadas pelo Lula, pela Dilma, a levar o Brasil à derrocada, como, na visão da mentalidade vampiresca, da criminosa austeridade, está levando.
Se a gente volta um pouco no tempo, ao golpe de 1964, vai encontrar o mundo empresarial, naturalmente muito diferente do atual, mas absolutamente o mesmo quanto a valores, quanto à ideia de explorar a classe trabalhadora ao máximo, deixar de lado os pobres, ignorar o futuro da juventude, e o próprio destino do Brasil. Vai deparar com o empresariado inteiramente envolvido nas articulações da quartelada, lado a lado com os norte-americanos, cujo papel foi decisivo em toda aquela operação e no apoio aos 21 anos de terror.
E atualmente?
Só olhar a atuação da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Apoiou entusiasticamente o golpe de 1964 e agora celebrou, defendeu as pautas do filho do presidente golpista abertamente, a considerar as declarações do presidente Paulo Skaf e a promoção de tantas reuniões com empresários organizadas pela Fiesp.
As classes dominantes brasileiras não mudam, não alimentam qualquer projeto de nação democrática e soberana, ao contrário.
Tudo isso dá alguma dimensão do porte de adversários enfrentados por Lula nessa eleição.
E a Faria Lima, não bastasse o próprio poder dela, ancorado na montanha de dinheiro, contou com aliados decisivos, como grande parte da mídia empresarial tradicional, cuja vocação é também vampiresca e partidária de valores ancentrais, dignos da Casa Grande.
A atuação da Rede Globo é a demonstração inequívoca disso, lado a lado com outras redes. Tal mídia fez de tudo no sentido de naturalizar a candidatura do filho do presidente golpista, cujos crimes estavam mais do que evidenciados, mas a ela isso pouco importava, pouco importou. Quis apresentá-lo, em alguns momentos, como um candidato moderado, por incrível possa parecer.
Não fosse suficiente, Lula ainda teve de enfrentar dois ministros do STF terrivelmente bolsonaristas, um a conturbar inteiramente o primeiro turno, André Mendonça, tentar esconder o apadrinhado dele e montanha de crimes em que estava envolvido.
Tentou de tudo no sentido de envolver o filho do presidente Lula em falcatruas sem conseguir uma única prova. Impôs uma pauta lavajatista no primeiro turno, ele próprio na sequência envolvido em escândalos de grande porte.
O outro, Kassio Nunes Marques, na presidência do TSE, obedecendo ordens do filho do golpista preso, logo envolvido em escândalos grotescos, atuando de forma escandalosamente parcial. Será lembrado pelo não-pagamento dos serviços de uma prostituta, num dos bacanais organizados por Vorcaro, isso pelo lado caricato, e por vários outros episódios envolvendo o protagonista, insista-se, do maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Com tais adversários, com uma agenda despolitizada, Lula perde o primeiro turno, com o adversário aparecendo na dianteira, e apontando para os riscos de vencer o segundo turno, como mandava a tradição brasileira.
Deu-se então o milagre.
Hannah Arendt diz que a possibilidade do milagre é dada pela política, pela ação política, capaz de romper com determinismos, e aconteceu aqui no Brasil de 2026, contrariando as expectativas e até a torcida da mídia empresarial e do mundo dos negócios.
O candidato adversário de Lula já havia sentado na cadeira presidencial, escolhido ministros, expandido o mandato, prometido acabar com toda sorte de programas sociais, diabo a quatro. Só faltava combinar com os russos – com o povo brasileiro. A ver, então, no próximo capítulo.
#vidamorte



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