Gilmar Teixeira
A Banda que Ainda Desfila na Memória
Desfile da banda filarmônica da ChesfHá sons que o tempo não consegue calar. Eles atravessam décadas, vencem o silêncio e continuam ecoando dentro de quem teve o privilégio de ouvi-los. Assim é a lembrança da Banda Filarmônica da CHESF, uma instituição que fez muito mais do que executar dobrados e marchas: ela deu ritmo ao nascimento de uma cidade.
Quando Paulo Afonso ainda era um grande canteiro de obras e milhares de homens e mulheres chegavam de todos os cantos do Nordeste para erguer as gigantescas usinas do rio São Francisco, a música também encontrava o seu lugar. Enquanto o concreto subia e as turbinas começavam a transformar a força das águas em energia, a Banda da CHESF transformava o cotidiano em festa.
Era impossível falar dos desfiles cívicos sem imaginar a figura elegante do maestro Expedito Aguiar, batuta firme nas mãos, uniforme impecavelmente alinhado, conduzindo cada nota com a mesma precisão com que a CHESF conduzia o sonho do desenvolvimento. Antes dele, outros maestros, já haviam escritos importantes páginas dessa história, consolidando uma tradição musical que se tornaria símbolo da cidade.
Os estudantes marchavam pelas ruas do Gangorra, pelo Acampamento da CHESF e pela Rua da Frente da Vila Poty, embalados pelos acordes da filarmônica. O aniversário da Companhia, celebrado em 15 de março, e as festividades de São Francisco ganhavam um brilho especial quando os instrumentos começavam a tocar. Não havia quem permanecesse indiferente.

A CHESF soube compreender que uma cidade não se constrói apenas com cimento, aço e eletricidade. Era preciso também cultivar a cultura. Por isso, buscou músicos nas melhores escolas de bandas filarmônicas do Nordeste. Vieram artistas de Monteiro, na Paraíba, de Sertânia, Afogados da Ingazeira, Carnaíbas e de tantas outras cidades onde aprender música era quase uma tradição de família.
Atraídos por um emprego digno, pela segurança de um lar no Acampamento da CHESF e pela oportunidade de viver uma nova história, esses homens trouxeram na bagagem muito mais do que seus instrumentos. Trouxeram talento, disciplina e paixão. Transformaram Paulo Afonso em um verdadeiro celeiro musical.
Quando o expediente terminava, muitos deles vestiam outra roupa e seguiam para os bailes do COPA e do CPA. Ali, as marchinhas de carnaval, os boleros, os sambas e tantos outros ritmos faziam casais ocuparem o salão até altas horas. Eram músicos extraordinários, alguns dos quais mais tarde seguiriam para o Sul do país, integrando grandes orquestras e acompanhando artistas consagrados da música brasileira. Mas suas raízes permaneceriam fincadas nas margens do Velho Chico.
Hoje, a banda pode não desfilar como antes, mas continua viva. Vive nas fotografias amareladas, nas lembranças dos pioneiros, nas histórias contadas entre amigos e, principalmente, na memória afetiva de quem ainda consegue ouvir, mesmo em silêncio, o som dos metais anunciando mais um desfile.

Fecho os olhos e quase vejo novamente o maestro Expedito Aguiar levantando a batuta. Os clarinetes respiram, os trompetes respondem, os bombardinos aquecem o peito da cidade e os tambores marcam o compasso de um tempo que jamais voltará, mas que nunca deixará de existir dentro de nós.
Porque existem bandas que apenas executam músicas. E existem aquelas que se tornam a trilha sonora de uma geração inteira.
A Banda Filarmônica da CHESF pertence a essa segunda categoria. Ela não tocava apenas para a cidade.
Ela tocava a própria alma de Paulo Afonso.




COMENTÁRIOS