Gilmar Teixeira
Os Meninos que Desafiaram o Medo
Passeata pelas ruas de Paulo Afonso - Em destaque Inácio da Catingueira, Ivando Brito e Zé IvaldoHá gerações que nascem para viver a história. Outras, porém, nascem para escrevê-la.
Paulo Afonso conheceu uma dessas gerações quando o Brasil ainda respirava o ar pesado da ditadura militar. A cidade, considerada Área de Segurança Nacional, sequer tinha o direito de escolher seu prefeito. O destino do município era decidido longe dali, por indicações do governo, enquanto a democracia permanecia distante como uma miragem no sertão.
Mas a juventude tem um defeito que, muitas vezes, muda o mundo: ela não sabe aceitar o impossível.
Foi nos corredores movimentados do velho colégio que surgiram os primeiros sinais daquela inquietação. Eu ainda recordo os rostos, os sonhos, os debates intermináveis e a certeza de que o futuro precisava ser diferente. Entre tantos jovens, havia um que chamava atenção pela firmeza das palavras e pela convicção dos gestos: Zé Ivaldo.
Ao lado de seu irmão Zé Ivandro e de uma geração inesquecível de homens e mulheres, nasceu um movimento que ousou enfrentar o silêncio imposto pela repressão. Ali estavam Marcos Fernandes, Dimas Roque, Marcos Edilson, Miro, Genivan, Gilberto Santana, Bada, Vanda Amorim, Jason, Dolores, Edy, Angelúcia, Cida, Manoel Jr., Nivaldo Lopes, Erkidilton Leão, Roberto Amorim, Padão, Zé Renato, Glaide, Genivaldo, Beka, João Roque, Idalina, Idalina Fonseca, Dorinha, Dora Baltas, Senivaldo, Vângela, Alceu, Aldo Carvalho, Naide Campos, Margareth, Cesário, Edjane, Nane e Maninha, Meirinha, Gilmar Teixeira, Goretti Caetano, Danda Roque, Rosires, Ivone Lisboa e Hélia Limeira, João Grilo, Dona Florinda, Eleno, Ivaldo Brito, Ivando Brito, Antônio Carvalho, Neide Brito, Janinho, Beto Rezende, Paulo Pemba, Inácio da Catingueira, Alberto Félix, Luiz Rúben e Angela, Manoel Cordeiro (Neto), Elza e Antônio Lacerda, Zé Ferreira, Francisca Barros, Otaviano Leandro, José Paiva e Maria josé Barros, Severino Neto, Sargento Neto, João da Batatinha, Nael, Montalvão, Rita Fagundes, João Francisco do Nascimento (Seu Danta), Evandro Paiva e tantos outros companheiros e companheiras, que fizeram da coragem sua principal bandeira.

Éramos jovens. E justamente por isso acreditávamos que podíamos mudar o mundo.
Organizávamos passeatas, promovíamos debates, reivindicávamos direitos e levantávamos uma bandeira que parecia um sonho distante: a volta da democracia e das eleições diretas para Paulo Afonso.
O medo caminhava ao nosso lado.
As perseguições eram constantes. A repressão não fazia distinção entre estudantes e agitadores. Bastava levantar a voz para ser tratado como inimigo.

Jamais esquecerei o dia da inauguração da agência do BANEB. A presença do poderoso governador Antônio Carlos Magalhães transformou a solenidade num palco inesperado de protesto. As vaias ecoaram mais alto do que os discursos oficiais. Em poucos minutos, a polícia já nos perseguia pelas ruas da cidade.
Corremos como quem corre para salvar não apenas a liberdade, mas também os próprios sonhos.
Foi na casa do vereador João de Brito, na Libanesa, que encontramos abrigo. A solidariedade dele nos livrou da prisão naquela tarde que permanece viva na memória de todos nós.

Entre nós, Zé Ivaldo já revelava o líder que o tempo confirmaria. Não era apenas um jovem de discursos inflamados. Pensava a cidade com maturidade, enxergava soluções onde outros viam problemas e fazia política com a convicção de quem acreditava que o povo precisava ser protagonista da própria história.
Quando finalmente a democracia voltou ao Brasil e Paulo Afonso recuperou o direito de escolher seu prefeito, foi justamente aquele jovem líder das passeatas quem recebeu a confiança popular.
A eleição de Zé Ivaldo simbolizou muito mais do que uma vitória eleitoral.
Era a vitória de uma geração inteira.
Era a confirmação de que aqueles estudantes perseguidos pela ditadura agora escreviam um novo capítulo da cidade.
Governar, porém, revelou-se um desafio ainda maior.

Sem recursos suficientes, enfrentando dificuldades administrativas e pouco apoio dos governos estadual e federal, Zé Ivaldo não cruzou os braços. Chamou o povo para participar dos mutirões, mobilizou trabalhadores, buscou talentos que haviam sido afastados pelos tempos difíceis, e fez da participação popular a principal ferramenta de governo.
Construiu estradas, recuperou comunidades, abriu açudes e plantou esperança onde muitos enxergavam apenas limitações.
Vieram as críticas. Vieram também as tentativas de diminuir sua importância histórica.
Mas algumas conquistas não pertencem a um mandato.
Pertencem à história.
Entre elas, sua luta para garantir que municípios com usinas hidrelétricas passassem a receber royalties da geração de energia, uma conquista que transformou definitivamente a realidade financeira de inúmeras cidades brasileiras, inclusive Paulo Afonso.
Depois continuou servindo como vereador, advogado, professor de Direito e defensor dos mais humildes.
Jamais abandonou os princípios que o levaram às ruas na juventude.
Saiu da vida pública com o mesmo patrimônio que possuía quando entrou: sua honestidade.
E talvez este seja seu maior legado.

Neste fim de semana, quando mais uma vez nos reunirmos para celebrar o aniversário de Paulo Afonso, não estaremos apenas revendo velhos amigos.
Estaremos reencontrando uma geração que acreditou quando era difícil acreditar.
Uma geração que enfrentou o medo sem deixar que ele vencesse.
Uma geração que compreendeu que democracia não é um presente; é uma conquista permanente.
Ao rever cada abraço, cada sorriso marcado pelo tempo, terei a certeza de que valeu a pena.
Porque nós não fomos apenas testemunhas da história.
Nós ajudamos a construí-la.

E, entre todos aqueles rostos que desafiaram a ditadura com a força da juventude, o de Zé Ivaldo permanecerá para sempre como o símbolo de uma geração que ousou transformar sonhos em realidade e ensinou a Paulo Afonso que a verdadeira política nasce da coragem, da honestidade e do compromisso com o povo.
Gilmar Teixeira.




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