Seja bem-vindo
Paulo Afonso,27/10/2026

  • A +
  • A -

Gilmar Teixeira

O primeiro jogo no Ruberleno, a primeira emoção

📸: Gilmar Teixeira
O primeiro jogo no Ruberleno, a primeira emoção

Há lugares que não são apenas feitos de concreto, arquibancadas e gramados. São construídos também de lembranças. E, quando voltamos a eles muitos anos depois, não enxergamos somente o presente: enxergamos também o menino que um dia fomos.


Era 15 de agosto de 1976. Eu tinha apenas 15 anos e carregava comigo uma paixão que nunca me abandonou: o futebol. Naquele domingo, Paulo Afonso vivia um daqueles dias que entram para a história. Era inaugurado o estádio Engenheiro Ruberleno de Oliveira, e para marcar a ocasião nada menos que um grande clássico pernambucano: Sport Recife contra Náutico.


Naquele tempo, os dois clubes eram forças respeitadas do futebol nordestino e brasileiro. Ambos disputavam a primeira divisão do Campeonato Brasileiro e possuíam em seus elencos jogadores conhecidos nacionalmente. Para um garoto apaixonado por futebol, aquilo era muito mais que uma inauguração. Era um acontecimento.


Antes mesmo do grande dia, já havia emoção. Lembro-me de uma tarefa do colégio: trazer um jogador de cada equipe. E eu, menino curioso e apaixonado pelo esporte, acompanhei tudo de perto. Entre os nomes que ficaram guardados na memória estavam os goleiros Neneca, do Náutico, e Tobias, do Sport. Eram jogadores que, para nós, pareciam gigantes.


Então chegou o domingo.


O estádio estava completamente lotado. As arquibancadas recebiam uma multidão ansiosa para testemunhar aquele momento histórico. De um lado, a torcida do Sport, que havia vindo de Recife; do outro, os apaixonados pelo futebol local, todos querendo participar daquela festa.


E houve uma cena que ficou marcada na minha memória.


O locutor Gilberto Leal, com seu carro de som, anunciou em alto e bom tom:


— Estamos inaugurando um dos melhores estádios do Brasil!


A torcida do Sport, que havia viajado de Recife, respondeu com uma sonora vaia.


Talvez Gilberto Leal tenha se deixado levar pela emoção daquele momento. Afinal, era um dia de festa. Mas a verdade é que o estádio ainda estava longe de ser um dos melhores do Brasil. Era, sim, um bom estádio, importante para a cidade e para toda a região. E, sobretudo, era nosso.


Pouco depois, a bola rolou.


Sport e Náutico entraram em campo, e eu estava ali, com meus quinze anos, vivendo algo que jamais esqueceria: o primeiro jogo de uma equipe profissional que assistia na vida.


Talvez para os jogadores fosse apenas mais um clássico, vencido pelo Sport Recife, 2 x O,  gols de Pedrinho e Cláudio Mineiro, Para mim, não, foi um momento impar, em minha vida.


Era um sonho acontecendo diante dos meus olhos.


Depois daquele domingo, o Ruberleno de Oliveira tornou-se palco de muitas histórias. Vieram outras grandes equipes do futebol nordestino, partidas do campeonato local, jogos do Intermunicipal e tantos outros confrontos que fizeram daquele gramado um verdadeiro templo da memória esportiva de Paulo Afonso.


O estádio também mudou de nome algumas vezes, conforme mudavam os governantes. Nomes vêm e vão. Placas são trocadas. Governos passam. Reformas acontecem. O concreto envelhece e depois é renovado.


Mas a memória permanece.


Hoje, quando volto ao estádio reformado e modernizado e assisto a uma partida da nossa seleção municipal, não consigo olhar para aquelas arquibancadas sem voltar no tempo.


Por alguns instantes, deixo de ser o homem que sou e volto a ser aquele menino de quinze anos.


Vejo novamente a multidão.


Escuto a voz de Gilberto Leal no carro de som.


Lembro da torcida do Sport.


Recordo os jogadores entrando em campo.


E, principalmente, sinto novamente aquela emoção de estar diante do meu primeiro grande jogo profissional.


O estádio pode ter mudado de nome, de aparência e de estrutura. Mas há algo que nenhuma reforma consegue modificar: as histórias que ficaram gravadas em seus muros, nas arquibancadas e, principalmente, no coração de quem viveu seus grandes momentos.


O Engenheiro Ruberleno de Oliveira é parte da história do futebol de Paulo Afonso. E também é parte da minha história.


Aquele menino de 15 anos cresceu, viu muitos outros jogos, conheceu novos estádios e acompanhou inúmeras partidas. Mas nenhum jogo terá para ele o mesmo significado daquele Sport e Náutico de 15 de agosto de 1976.


Porque o primeiro jogo a gente nunca esquece.


E que venham novas partidas, novos campeonatos, novos craques e novas gerações de torcedores.


Que o estádio continue de portas abertas, recebendo o povo e escrevendo outras páginas da história do nosso futebol.


Porque enquanto houver uma bola rolando naquele gramado, haverá também alguém nas arquibancadas vivendo uma emoção que, muitos anos depois, poderá se transformar em memória.


Como aconteceu comigo.


E talvez seja justamente essa a maior vitória de um estádio: permanecer vivo na lembrança daqueles que um dia fizeram parte de sua história.




COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.