Ainda demoraremos muito tempo para perceber o significado mais profundo dessa magnifica vitória da democracia desse 25 de outubro de 2026, dia a ficar na história. Contrariou tudo, todos os desejos mais reacionários, todos os bilionários, toda a Faria Lima, praticamente toda a imprensa tradicional fundada no lucro, todas as Big Techs, Meta e os escambau, Trump e a arrogância dele, Milei e o diabo a quatro.
O triunfo foi maior porque contra os poderes mais sórdidos vinculados ao capital, nesse momento de crise do capitalismo, ao deixar o mundo fundado no dinheiro à beira de um ataque de nervos, e por isso, mais violento. Ao conjunto ultraconservador faltou combinar com o povo brasileiro.
O candidato adversário, filho do ex-presidente golpista, devidamente condenado e preso pela tentativa do golpe de estado de 8 de janeiro de 2023, não conseguiu esconder seu espírito nitidamente fascista, violento, porque impossível esconder a condição de miliciano, por palavras e atos.
Os comandados dele, nas ruas, davam grotescos espetáculos, violentos, homofóbicos, e racistas. Não será esquecida jamais a imagem repulsiva de um bolsonarista, numa manifestação, conduzindo um negro acorrentado vestido com camiseta do PT. Com esse tipo de ser humano, não há conciliação possível. Será sempre objeto de nossa indignação.
Queria ressaltar um aspecto dessa vitória: a esperança venceu o medo e o ódio. As milhões de pessoas nas ruas deram um recado nítido: são parte da sociedade envolvida com o sentimento de solidariedade, de compaixão, desculpem até recorrer a um mandamento cristão, de amor ao próximo. Nelas expressaram-se o melhor dos sentimentos do ser humano.
Manifestações impulsionadas pela juventude e que envolveu todas as classes sociais, todas as idades, num movimento comovente, consciente da gravidade do risco enfrentado pela Nação, o de ser dirigido por um notório fascista, cuja trajetória foi e é marcada pelo ódio.
Comovente ver idosos com mais de 90 anos votando, em cadeira de rodas muitas vezes, ajudados por outra pessoas, todos querendo cumprir o dever democrático do voto, e salvar o País. Lula, a mais grandiosa figura política de nossa história, do alto de seus 81 anos, afirmou: governará para todos.
As mobilizações do nosso povo, se carregavam indignação, nunca foram movidas pelo ódio. Do lado adversário, há os empedernidos bolsonaristas, cujas esquadras são capazes de tudo, fechados a quaisquer argumentos, por mais racionais sejam, e com estes não adianta tentar convencimento.
Há, no entanto, muita gente envolvida por um trabalho cultural, político-ideológico, recheado de fake news, com quem se deve conversar, sem ódio, evidenciando, nesse esforço de convencimento, o quanto a democracia é essencial, e o quanto é fundamental unir a Nação em favor da melhoria de condições de vida dos mais necessitados, tal e qual tem agido o presidente Lula em toda a trajetória dele, especialmente nos períodos à frente da presidência da República.
Não seremos nós, não devemos ser os fomentadores de um clima de ódio no País. Ao contrário. Sem ilusões, sabendo das imperfeições dos seres humanos, do quanto alguns momentos históricos podem levá-los a atitudes movidas pelo ódio, nosso dever é o da defesa da democracia e, por isso, contra o ódio. Este, sempre foi combustível do fascismo para incrementar dia a dia a violência, uma característica inseparável de tal corrente, adepta da barbárie.
Nosso trabalho político-cultural, entremeando redes e ruas, vai continuar de modo a defender e impulsionar o governo Lula, num quadro onde alternam esperança e dificuldade, esperança pela disposição do povo brasileiro de cada vez mais tomar o destino nas mãos, e dificuldade especialmente pela composição do parlamento brasileiro. Nosso esforço deve estar fundado na esperança de mexer com o coração das pessoas cujo voto não foi nosso.
Volto: há milhões cujo pensamento ainda não foi contaminado pelo ódio. Levados numa direção equivocada, contaminados pelo egoísmo, pelo indivualismo, pela chamada meritocracia, podem ser tocados pela fraternidade, solidariedade, voltar ao terreno democrático, entendido como território marcado pelo perene esforço da igualdade entre os seres humanos. Tenho convicção de não ser apenas um pensamento desejoso.
Triste constatar a existência de correntes religiosas cristãs voltadas ao incremento do ódio. Uma realidade infelizmente, levando tanta gente a acreditar ser positivo odiar o irmão, buscando pinçar uma ou outra passagem do Velho Testamento para dar condições de sustentação bíblica a um sentimento tão estranho à essência dos ensinamentos dos evangelhos, à fala do Cristo presente no Novo Testamento.
De mim, ateu, dedicado ao respeito mais profundo à fé das pessoas, proclamo a necessidade de combatermos o espírito do ódio entre brasileiros. Necessidade de unir a Nação em defesa da democracia e de nossa soberania. De combater o individualismo, e buscar o sentimento da existência coletiva. De defender o trabalho essencial do Estado, das políticas públicas destinadas a enfrentar as desigualdades. De abraçar a diversidade, respeitar as escolhas e a identidade de cada pessoa.
Esta deve ser a nossa política, insisto: respeitar as divergências, compreendê-las como parte da democracia, tratá-las de modo fraterno, à base da boa argumentação, do conhecimento, da ciência. O ódio como base da política, vou insistir, só é parte inseparável da política para os fascistas, sempre acompanhado, e cabe a insistência, da violência.
Leio agora o segundo volume de “Mussolini, o filho do século”, de Antonio Scurati, notável trabalho, a evidenciar o quanto o fascismo esteve baseado no ódio e na violência, e assim continua inegavelmente.
Volto a me referir a Freud, tendo à mão o texto “Considerações atuais sobre a guerra e a morte”, de 1915. Ele se pergunta, numa parte da reflexão dele, por que “os povos-indivíduos de fato se menosprezam, se odeiam, se execram, e isso também em períodos de paz”. Para ele, algo enigmático.
Como se, ele diz, todas as conquistas morais do indivíduo se apagassem quando se junta um bom número ou mesmo milhões de pessoas. E restassem, então, apenas as atitudes mais primitivas, mais antigas e cruas.
Freud alimenta, no entanto, esperança no desenvolvimento das pessoas de modo a haver mudanças naquele lamentável estado de coisas. Defende um pouco mais de franqueza e veracidade em todos os lados, nas relações das pessoas entre si e entre elas e aqueles que as governam. Quem sabe isso pudesse aplanar o terreno para a mudança, e aquele ódio entre os seres humanos pudesse desaparecer ou ser aplacado.
Tudo, tenho certeza, como imagina e defende o presidente Lula, cuja declaração ontem após a vitória evidencia tal pensamento. Governar para todos e com todos estabelecer um clima de concórdia na sociedade, sem nunca deixar de lado o sentimento de indignação contra qualquer injustiça, o sentimento de manter sempre o governo voltado à busca da igualdade. Jamais esqueceremos a lição desse 25 de Outubro, uma data histórica, quando, vamos insistir, a esperança venceu o ódio.
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