Emiliano José
A vida depende da política
Numa série iniciada com a disposição de discutir a vida e a morte, a finitude e a exuberância da existência, parece estranho passar a refletir sobre esse momento da vida política do País, de modo particular pensar a memorável vitória eleitoral, a colocar o presidente Lula num inédito quarto mandato obtido das urnas, e ele tendo chegado com enorme vitalidade aos 81 anos.
Não há nada de estranho.
Nessas eleições, a vida estava em jogo, e não é apenas metáfora. Acaso o candidato adversário, miliciano e defensor de milícias, vencesse, uma espécie de necropolítica iria prevalecer. No segundo turno, presunçoso, arrogante, danou-se a revelar os planos dele, diretamente ou por interpostas pessoas Tornou nítida a disposição dele em fazer sangrar o povo brasileiro, em retirar direitos sem dó nem piedade, entre tantas coisas a fazer nossa gente mais pobre voltar à fila do osso e ao mapa da fome.
Como ficou nítida, com palavras ditas por ele próprio, a disposição de mudar a institucionalidade brasileira, não estando descartada, com uma presumida maioria legislativa, a implantação de uma espécie de ditadura, numa caminhada semelhante à do fascismo, com Mussolini, ou do nazismo, com Hitler.
Não foi inocente a fala dele em alterar a Constituição, alterar o tempo de mandato do presidentre da República, como não o foi ele praticamente pregar outro golpe de estado para tirar o pai da prisão. Os fascistas não costumam se resguardar: falam aos borbotões, se revelam, por arrogantes e cheios de si, salvo quando a água chega aos fundilhos, como chegou agora, com a vitória de Lula.
O sucesso do primeiro turno lhe subiu à cabeça, e nem sequer imaginou pudesse o povo brasileiro construir memorável virada.
A política está diretamente vinculada à vida, à maior ou menor longevidade, à comida disponível à mesa, à residência de cada um, à assistência à saúde, à boa ou má educação, aos transportes públicos, ao lazer, e é indiscutível a ocorrência de consideráveis mudanças no decorrer dos governos de Lula e de Dilma Rousseff, quando políticas públicas inovadoras e distributivas foram colocadas em prática e elevaram inegavelmente a qualidade de vida do povo.
Se tomarmos os índices de expectativa de vida, veremos como políticas governamentais interferem diretamente na existência, no viver menos ou mais. Em 2002, quando Lula vence a primeira eleição, a expectativa de vida era de 71 anos. Chega nos dias atuais, e isso é obviamente decorrente das políticas públicas, não apenas da assistência à saúde, chega a quase 77 anos, rigorosamente a 76,6 na média. Não demora, a seguir com tais políticas públicas, e chegaremos aos 80 anos de expectativa de vida, minha idade, idade de Lula.
Governos voltados exclusivamente a engordar o bolso dos mais ricos, como inegavelmente seria o do adversário, hoje criminoso abrigado pelos EUA, deixam políticas distributivas de lado, abandonam políticas públicas destinadas a melhor a vida dos mais pobres, e isso inevitavelmente provoca fome, miséria, abandono, exclusão da população trabalhadora, atinge, naturalmente, a expectativa de vida. Não por acaso, dólar subiu, bolsas despencaram quando da notícia, na noite do dia 25 de outubro, dando conta da vitória de Lula.
O capital sabe da disposição de Lula de não dar cavalo de pau num transatlântico como o Brasil, mas sabe também da disposição dele de seguir com políticas destinadas a distribuir renda, voltada ao chamado andar de baixo. O capital, nessa fase neoliberal, não admite diminuir a taxa de lucro, e qualquer governo reformista, como o caso brasileiro agora, deve ser combatido. Contra Lula, por evidentes razões, preferiam qualquer um, até um miliciano, como ficou demonstrado.
Voltando ao início do nosso texto. Para se perceber como políticas públicas tem a ver com a vida, com longevidade da existência, basta fazer comparação, outra vez, com a fase anterior a Lula e o momento atual, decorrente do impacto das políticas governamentais dos governos dele e de Dilma, voltadas à melhoria das condições de vida das pessoas.
A população com 60 anos ou mais era de aproximadamente 15,2 milhões de pessoas em 2002. Em 2026, o número mais que dobrou, chegando a 36,6 milhões. Se antes tal população, em 2002, representava 8,7% dos habitantes do País, em 2026 chega a 17%.
Não há milagre nisso. Decorre da política, da boa política. Da atenção dada por governos à saúde pública, ao saneamento básico, ao reajuste do salário mínimo, sim senhor, reajuste acima da inflação coloca mais comida na mesa e assegura saúde da nossa gente.
Esses anos de governos Lula e Dilma, com o nefasto intervalo entre 2016 e 2022, governos Temer e Bolsonaro, foram inegavelmente uma bênção para o nosso povo, não obstante se saiba, e Lula sabe, o quanto ainda resta por fazer diante da continuidade de uma obscena desigualdade decorrente do tipo de capitalismo vigente no mundo e no Brasil, fundado no neoliberalismo, de cujas amarras nossos governos não conseguiram se livrar, embora tenham feito de tudo no sentido de remar contra a maré, e com isso foi possível melhorar a vida dos mais pobres.
Lula sabe o quanto precisa avançar, como sabe também dos obstáculos. Certamente nesse inédito quarto mandato vai buscar na energia do nosso povo, sobejamente demonstrada no segundo turno, a sustentação para implementar mudanças, equilibrando-se da melhor maneira entre as cruéis regras do jogo do mundo do capital e imperiosa necessidade de seguir com políticas públicas voltadas a enfrentar as desigualdades e garantir melhorias na qualidade de vida de nossa gente. Inovador, ousado - assim será o novo governo de Lula: ao menos é a esperança das maiorias, cujas movimentações coloriram as ruas do Brasil, entregando-lhe essa extraordinária vitória.
#vidamorte



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