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Paulo Afonso,30/08/2026

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Gilmar Teixeira

Glória: a terra onde minhas raízes aprenderam a florescer

Gilmar Teixeira
Glória: a terra onde minhas raízes aprenderam a florescer

Há cidades que se conhecem pelos mapas, pelos números ou pelos registros da história. Glória, porém, só pode ser compreendida por quem escuta o murmúrio do Velho Chico, sente o cheiro da terra molhada depois da chuva e percebe que cada pedra, cada árvore e cada estrada de barro guardam a memória de um povo.


Foi ali que tudo começou.


Muito antes de existir a cidade, aquelas terras já pertenciam aos povos indígenas Mariquitas e Pancarús, primeiros guardiões daquele chão sagrado. Depois vieram os bandeirantes, os missionários, os criadores de gado, os agricultores e tantas famílias que, com trabalho e esperança, transformaram o antigo Curral dos Bois em Santo Antônio da Glória e, mais tarde, simplesmente Glória. Cada mudança de nome não apagou o passado; apenas acrescentou novas páginas a uma história que continua sendo escrita.


Mas a verdadeira Glória nunca esteve apenas nos documentos oficiais. Ela vive na simplicidade da sua gente.


Nasce nas águas cristalinas de Olhos d'Água de Souza, onde também nasceram minhas primeiras lembranças e onde estão fincadas as raízes da minha família. Cresce no silêncio acolhedor do Retiro, nas paisagens do Brejo, na imponência do Porto da Serra, na fertilidade do Malembá, na força da Quixaba, na tradição de Freitas Cerquinha, nas lagoas que alimentam histórias, lendas e sonhos.


Foi naquele sertão que aprendi que riqueza não se mede pelo que se possui, mas pelos valores que se herdam. Meus familiares moldaram sua existência entre a agricultura, a criação de animais, o respeito à palavra dada e a fé que sustentava os dias difíceis. Eram homens e mulheres que pouco tinham, mas muito ensinavam. Cada um deles deixou gravada uma lição que o tempo jamais conseguiu apagar.


Glória também me ensinou a contemplar. O Velho Chico nunca foi apenas um rio. Sempre foi um mestre. Suas águas mostravam que a vida segue adiante, contornando pedras, vencendo obstáculos, irrigando esperanças. Quantas vezes aquele rio testemunhou despedidas, reencontros, alegrias e lágrimas sem jamais deixar de correr em direção ao futuro?


Hoje, quando retorno em pensamento à minha terra natal, não encontro apenas ruas ou povoados. Encontro vozes. Escuto o chamado dos antigos vaqueiros, o toque dos sinos de Santo Antônio, o mugido das boiadas que deram origem ao Curral dos Bois e o riso das crianças correndo livres pelas estradas de chão.


Percebo, então, que ninguém nasce apenas em uma cidade. Nascemos também na cultura que nos forma, nas histórias que ouvimos, nas mãos calejadas que nos criaram e nos horizontes que moldaram nossos sonhos.


Glória continua vivendo dentro de mim porque foi ali que aprendi quem sou. E enquanto houver alguém disposto a contar suas histórias, preservar sua memória e honrar seus antepassados, aquela antiga terra sertaneja continuará florescendo, não apenas às margens do São Francisco, mas também no coração de todos aqueles que tiveram o privilégio de chamá-la de lar.


Porque algumas terras não pertencem apenas à geografia. Elas pertencem à alma. E Glória, para mim, será sempre o lugar onde minhas raízes aprenderam a florescer.

Gilmar Teixeira.





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